Os Olhos que Fingem Não Ver
Cap. 3 de 22 · 9%

Visão e Percepção

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Viver com Ren Takeda era como aprender uma língua estrangeira falada apenas em silêncios e objetos imóveis. O apartamento no topo do mundo não era um lar, era um território sagrado dele, um mapa de eficiência onde Sayuri era a única anomalia. Cada xícara deixada à direita da cafeteira, cada livro intocado na prateleira, cada sapato alinhado na entrada era uma regra não dita que pesava em seus ombros. Ela se movia por aquele santuário de tons de cinza com a cautela de quem pisa em gelo fino. Estava a caminho da cozinha naquela manhã quando algo quebrou a simetria perfeita. Uma escultura. Negra, retorcida, agressiva. Uma armadilha de metal instalada no meio do corredor que Ren percorria de memória, um perigo plantado onde antes havia segurança absoluta. O arquiteto, um homem de gestos nervosos, devia ter presumido que outra pessoa o avisaria. O clique suave da porta do escritório soou atrás dela. E então, o som familiar: a batida rítmica da bengala de titânio no mármore polido. *Tap. Tap. Tap*. O som da confiança cega. Ele vinha em sua velocidade habitual, imperturbável, direto para as arestas afiadas da escultura. O pânico subiu pela garganta de Sayuri. Gritar? A palavra morreria no ar. Tocar nele? A lembrança do frio de seus dedos no restaurante era um aviso. Cada toque parecia uma concessão, uma peça que ela entregava no jogo dele. Mas o som se aproximava. *Tap. Tap.* Quatro metros. Três. — Ren — a voz dela saiu mais baixa do que pretendia, mas cortou o silêncio como uma lâmina. O som da bengala cessou. Ele virou a cabeça na direção dela, o corpo imóvel, uma pantera que sente uma mudança no vento. O silêncio que se seguiu era uma arma que ela já conhecia, um vácuo que forçava o outro a se expor. Sayuri não cedeu. Respirou fundo, ancorando-se. — Há um obstáculo no corredor. Uma escultura nova. Ele apenas esperou, o rosto inescrutável atrás das lentes escuras. — Pare onde está — disse ela, a voz agora firme, precisa. Assumindo o controle daquele instante. — Dê três passos para a sua direita. Ele obedeceu sem hesitar. O movimento foi de uma fluidez surpreendente, cada músculo respondendo com precisão econômica. Ele não era um homem sendo guiado; era um predador se ajustando ao terreno. — Agora pode seguir em frente. O caminho está livre por cinco passos. *Tap. Tap. Tap. Tap. Tap.* Ele parou exatamente como instruído, bem ao lado dela. De pé, a presença dele era ainda mais avassaladora, uma energia contida que fazia o ar vibrar. — Uma escultura? — perguntou ele, a cabeça inclinada para a forma que supostamente não via. — Metal. Escura. Parece desequilibrada de propósito. — A instabilidade é a intenção do artista — disse ele, a voz tingida de uma ironia sutil. — Grato pela orientação, Sayuri. Ele se virou para retomar seu caminho. No movimento, porém, a lateral do seu sapato enganchou na base de uma pequena luminária de chão que ela mesma, mais cedo, havia deslocado centímetros do lugar para limpar uma gota d'água. O corpo dele pendeu para a frente num ângulo agudo. A bengala escorregou no piso liso. Por uma fração de segundo, a queda foi inevitável, uma certeza física. Mas não houve queda. Houve um borrão. Um movimento impossivelmente rápido que o cérebro de Sayuri mal registrou. Antes que o desequilíbrio se completasse, o pé direito dele disparou para trás, encontrando o chão com a precisão de um bailarino, o corpo inteiro se realinhando por um milissegundo em uma postura de controle absoluto. Foi o reflexo de quem viu. De quem antecipou o chão que não deveria enxergar. E só então, como um ator que perdeu a deixa, ele permitiu que o desequilíbrio voltasse. Cambaleou de verdade, a mão se espalmando contra a parede com um baque surdo, uma performance tardia e crua. Uma farsa. — Droga… — murmurou ele, a respiração deliberadamente ofegante, a mão livre passando pelo cabelo em um gesto de falso abalo. Sayuri não se moveu. Não ofereceu ajuda. Não perguntou se ele estava bem. Ela apenas assistiu, o coração martelando contra as costelas, não de susto, mas de clareza. Ela vira o reflexo impossível. A graça animal que não pertencia a um homem tropeçando no escuro. Ele se endireitou, virando o rosto para o espaço onde ela estava, um sorriso tenso brincando nos lábios. — Este lugar está ficando perigoso. Ainda aí, Sayuri? Ela deu um passo à frente, lento e deliberado, parando a um metro dele. Ele esperava que ela o amparasse, que cumprisse o papel de cuidadora preocupada. Que voltasse a ser uma peça previsível no tabuleiro dele. Mas Sayuri Ito não estava mais apenas reagindo. Ela estava observando. Seu olhar não estava no rosto dele, mas fixo no espaço vazio onde a física fora desafiada e a mentira dele, exposta. Ela ergueu os olhos para as lentes escuras que o escondiam, inclinando a cabeça num eco sutil do gesto que ele tanto usava. — O seu reflexo — disse ela, a voz um sussurro calmo que ecoou como um trovão no silêncio do apartamento. — É impressionante.
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