Poeira e Pérolas
Cap. 2 de 22 · 5%

A Proposta de Eldoria

6 min de leitura
A corrente de segurança era uma piada de latão contra a certeza nos olhos daquele homem. Amélie recuou, sentindo o clique da porta ao se abrir por completo. Ele não entrou; ele ocupou. O ar no ateliê, espesso com o cheiro de terebintina e poeira de séculos, pareceu encolher, recuar de seu paletó impecável e do cheiro frio de lã cara e nada mais. Julian Croft parou no centro da sala. Seus sapatos, de um brilho ofensivo, pareciam repelir o pó que cobria cada centímetro do chão. Seu olhar cinzento varreu o caos organizado — as telas, os pigmentos, os pincéis em seus potes — não com curiosidade, mas com a análise de um inspetor. O olhar pousou sobre a mesa de trabalho, depois no cavalete, onde a paisagem da avó agora exibia sua pequena cicatriz retangular. — Onde está? — A voz era a mesma da porta, um barítono nivelado que cortava o silêncio. Amélie cruzou os braços, um gesto instintivo e inútil. O coração batia surdo contra suas costelas. — Não sei do que você está falando. Um canto de sua boca se ergueu, um milímetro de desprezo. — Mademoiselle Dubois, não temos tempo para jogos. O documento que encontrou. Agora. A forma como ele disse “agora” não era uma ordem, era uma constatação de um fato inevitável. Como a maré. — Aquele pergaminho… — A voz dela era um fio. — O que é? Como soube que eu… — Como eu sei? — ele se aproximou, e o campo de força invisível ao seu redor fez o ar ficar mais denso. — Porque há cinquenta anos minha família o procura. E seu surgimento, digamos, aciona certos alarmes. Família. A palavra a desequilibrou. Aquilo era pessoal. — O que tem nele? — insistiu, dando um passo à frente. Um erro. Ela invadiu o espaço dele, e o cheiro frio de seu terno pareceu roubar o calor de sua pele. Julian a encarou, e pela primeira vez, algo além do controle glacial tremeluziu em seu olhar. Uma sombra de cansaço profundo, o peso de um segredo guardado por gerações. — A ruína de uma nação — disse ele, a voz baixa. — Ou a salvação, dependendo do ponto de vista. É o verdadeiro testamento de Alaric, Duque de Eldoria. Prova que a linha sucessória que governa hoje é uma fraude. Eldoria. O nome soava como uma fantasia, um ducado de contos de fada famoso por seus selos. O chão pareceu ondular sob os pés de Amélie. — Loucura. Minha avó era uma pintora, uma mulher simples… — Sua avó — Julian a interrompeu, cada sílaba precisa como um corte — era a confidente do duque. E a mulher que o ajudou a esconder seu último desejo do próprio irmão, um usurpador que reescreveu a história. A pintura não é uma obra de arte. É um cofre. A imagem da sua avó, com as mãos manchadas de tinta e cheiro de lavanda, estilhaçou-se. Em seu lugar, surgiu uma estranha, uma jogadora silenciosa em um jogo de tronos. O pergaminho, escondido sob uma pilha de esboços, de repente parecia radioativo. — Eu não quero fazer parte disto. — Amélie recuou até sua mesa, buscando a solidez da madeira. — Leve. Pegue e suma da minha vida. — Tarde demais. — Ele deu um passo, depois outro, anulando a distância que ela criara. Era mais alto de perto, uma torre bloqueando a luz da claraboia. — Você o tocou. Você o leu. Para quem nos observa, você não é mais uma restauradora. É a mulher que detém a chave do reino. Um calafrio desceu por sua espinha. As ameaças mais aterrorizantes não vinham em gritos, mas em tons de conversa. — O que você quer? Dinheiro? Ele soltou um som que poderia ser uma risada, se não fosse tão vazio de humor. — Eu quero contenção. Quero que este escândalo morra antes de nascer. Se este testamento vazar, a credibilidade da minha família — que tem laços comerciais profundos com Eldoria — vira pó. Reputações se desfazem. Mercados quebram. — E como pretende conter isso? Ele estendeu a mão, não para ela, mas para a mesa. Com uma delicadeza desconcertante, pegou um de seus menores pincéis, um de pelo de marta que ela usava para detalhes finos. Ele o rolou entre o polegar e o indicador, estudando as cerdas. — Existem duas narrativas possíveis para você, Mademoiselle Dubois. Na primeira, uma restauradora desconhecida tenta chantagear um ducado com um documento forjado. Uma golpista. — Seus olhos cinzentos encontraram os dela. — Sua carreira estaria acabada. A galeria Lefèvre cancelaria seu contrato. O dono deste prédio, um velho amigo de um conhecido meu, encontraria uma razão para despejá-la. Sua vida, tão cuidadosamente construída, seria desmantelada… em silêncio. O ar abandonou seus pulmões. Ele sabia da Lefèvre. Sabia de tudo. A constatação a atingiu não com pânico, mas com uma calma gelada. Ela não estava sendo ameaçada; estava recebendo o relatório de uma demolição já planejada. — Mas há uma segunda narrativa — continuou ele, a voz baixando para um tom quase íntimo, conspiratório. Ele colocou o pincel de volta no lugar, perfeitamente alinhado. — Uma jovem e talentosa restauradora encontra uma relíquia de família e, numa feliz coincidência, está prometida a um homem cuja família tem laços históricos com a nobreza de Eldoria. Ele fez uma pausa. O silêncio na sala era absoluto. — Isso não é um escândalo. É uma história de amor. Uma novela que a imprensa devoraria. O testamento se torna um detalhe romântico, uma curiosidade histórica dentro de um conto de fadas moderno, e não a bomba política que realmente é. Amélie o encarou, a náusea subindo por sua garganta. As palavras não faziam sentido e, ao mesmo tempo, tinham uma lógica terrível e impecável. — Prometida? Você… está propondo… — Um casamento. — A palavra saiu de sua boca sem qualquer emoção, um termo de contrato. — De conveniência, claro. Com prazo definido e cláusulas que garantirão sua liberdade e sua segurança. Você me empresta seu nome e sua história, e eu lhe dou proteção absoluta. Você se torna Sra. Croft. Intocável. Ele tirou um cartão do bolso interno do paletó. Branco, rígido, com seu nome e um número gravados em preto. Colocou-o sobre a mesa de trabalho, ao lado de um frasco de solvente. Uma peça moderna e estéril sacrificada no altar do caos de sua vida. Amélie abriu a boca para gritar, para rir daquele absurdo, para mandá-lo para o inferno. Mas as palavras morreram. Ela viu a verdade nos olhos dele. Ele não estava perguntando. Ele não tinha feito uma proposta. Tinha apresentado a ela a única porta de saída de um prédio em chamas. — Meus advogados entrarão em contato pela manhã para discutir os termos. Ele se virou e foi até a porta, seus passos silenciosos sobre a poeira. Antes de sair, parou e olhou para ela por cima do ombro, seu rosto uma máscara de controle. — Pense bem, Mademoiselle Dubois. Mas não por muito tempo. A porta se fechou, e o som do trinco foi como o de uma fechadura de cofre girando. O silêncio que ele deixou para trás era mais pesado do que sua presença. Amélie ficou imóvel, o olhar fixo no pequeno cartão branco. Não era uma escolha entre a aniquilação e a gaiola dourada. A escolha era sobre que parte de sua alma ela estava disposta a vender para continuar existindo.
Comentar este capítulo
Comentários de "A Proposta de Eldoria" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬