Poeira e Pérolas
Cap. 3 de 22 · 9%

Contrato de Almas

5 min de leitura
O ar que se respirava no quadragésimo andar cheirava a tempo parado e poder antigo. Das janelas panorâmicas do escritório de advocacia, Paris se estendia como um mapa de conquista, mas o silêncio ali dentro era absoluto, denso como veludo. Cada superfície de mármore e madeira escura brilhava, intocada. Para Amélie, acostumada ao caos criativo e ao cheiro de aguarrás de seu ateliê, aquilo não era um lugar. Era um vácuo. Era o mundo de Julian Croft. Ele já estava lá, claro. Sentado numa poltrona de couro que parecia um trono, ele não encarava a porta por onde ela entrou, mas a cidade lá fora. A postura era relaxada, quase desinteressada, mas carregava a imobilidade de um predador à espera. Não se deu ao trabalho de se levantar quando Amélie foi guiada por um advogado de terno impecável, cujo sorriso parecia um exercício facial. Julian apenas inclinou a cabeça, e seus olhos cinzentos a varreram — um inventário frio e rápido que a fez se sentir como um objeto recém-adquirido. — Mademoiselle Dubois. Agradecemos sua pontualidade — disse o advogado, Monsieur Delacroix, com uma voz suave e oleosa. — Por favor. Amélie sentou-se na ponta da poltrona, a espinha rígida. Na mesa de centro entre ela e Julian, repousava o contrato. Uma pilha intimidadora de papel marfim, unida por um clipe dourado. O peso daquele documento parecia distorcer o ar ao redor. — Como meu cliente, Monsieur Croft, já lhe adiantou, este contrato formaliza os termos de uma… parceria — Delacroix escolheu a palavra com cuidado. — Um casamento de benefício mútuo e duração determinada. Ele começou a ler as cláusulas em um murmúrio monótono, um jargão legal projetado para sufocar qualquer vontade de resistir. Amélie não absorvia as palavras; ouvia o som de chaves girando em fechaduras. Sua vida, seu futuro, seu próprio nome, tudo sendo fatiado em parágrafos numerados. Do outro lado, Julian permanecia uma estátua. Ele não participava da leitura; ele era a força gravitacional que prendia todos ali. — …a cônjuge, doravante denominada ‘a Beneficiária’, compromete-se a residir no endereço principal estipulado pelo… — Eu tenho condições. — A voz de Amélie cortou o ar como um caco de vidro. Delacroix parou, a boca entreaberta. Surpresa genuína faiscou em seus olhos. Julian, pela primeira vez, girou lentamente na poltrona, alinhando seu corpo ao dela. A neutralidade polida em seu rosto foi substituída por uma atenção cortante. — Prossiga — disse Julian, a voz grave ignorando a presença do advogado. O olhar de Amélie o encontrou, pulando o intermediário. A negociação era com ele. — Meu ateliê. Quero uma cláusula que garanta meu acesso irrestrito e a continuação do meu trabalho. Não é um hobby. É minha vida. — Artigo Seis: Autonomia Profissional — continuou ela, sentindo uma corrente de força subir por sua espinha. — E finanças. Recuso qualquer tipo de pensão ou mesada. Viverei do meu trabalho. Minhas contas permanecem separadas e privadas. O silêncio tornou-se pesado. Delacroix olhou para Julian, esperando uma ordem. Julian inclinou a cabeça, um predador analisando um movimento inesperado. Não havia raiva em seu olhar, mas algo muito mais inquietante: interesse. — Concedido — disse ele, a palavra caindo como uma sentença. — Próximo. O advogado piscou, desnorteado, antes de pegar a caneta. Amélie sentiu o pulso martelar nas têmporas. Ela ganhara terreno, mas sentia que o chão sob seus pés era dele. — A duração. O contrato menciona ‘duração predeterminada’. Eu quero uma data final. Exata. Dois anos. Após esse prazo, o acordo se dissolve, sem ônus, independentemente do que aconteça com… Eldoria. — Lançar o nome do ducado era sua aposta mais alta, a prova de que ela entendia o que estava em jogo. Essa era a sua âncora. A linha de chegada que a manteria sã. Julian não respondeu de imediato. Seu olhar percorreu o rosto dela, a postura desafiadora, as mãos fechadas sobre o colo. Era como se ele estivesse recalculando uma equação complexa que de repente ganhara uma nova variável. O ódio que ela sentia por ele ainda estava lá, um nó gelado em seu estômago. Mas agora tinha companhia: um grão irritante de respeito. Ele não era um tirano estúpido. Era um arquiteto, e ela estava presa em sua construção. Mas talvez, só talvez, ela pudesse negociar o tamanho de sua janela. — Um ano — disse Julian, por fim. Amélie franziu a testa. — Desculpe? — Um ano. É tempo suficiente para estabilizar a situação. Mais rápido, mais limpo. Depois disso, você está livre. — Seu olhar a desafiava a recusar aquela liberdade antecipada. — Monsieur Delacroix, adicione as cláusulas. As novas páginas foram impressas com uma eficiência assustadora. Quando o contrato revisado retornou à mesa, parecia o mesmo, mas para Amélie, era a diferença entre uma sentença perpétua e uma com data para terminar. Delacroix lhe estendeu uma caneta-tinteiro de laca preta e ouro. Parecia uma arma cerimonial. A mão dela tremeu ao pegá-la. Seu olhar cruzou com o de Julian. Controle absoluto. Ele já havia assinado, seu nome uma navalha de tinta preta no papel. Amélie se inclinou, o cheiro de tinta e papel caro subindo como um perfume fúnebre. Sua assinatura, usualmente fluida e artística, saiu rígida. Uma cicatriz de tinta. Amélie Dubois. Com o último traço, ela se tornou, legalmente, a noiva de um homem que a aterrorizava. Os advogados recolheram os papéis e se retiraram com a discrição de fantasmas. A porta se fechou com um clique suave, e o silêncio que caiu entre ela e Julian era diferente. Era a quietude sufocante de uma cela compartilhada. Ele se levantou, o movimento fluido e preciso, e caminhou até parar bem à sua frente, forçando-a a erguer a cabeça para encará-lo. O espaço pessoal entre eles crepitava. Amélie prendeu a respiração, o queixo erguido. Ele não disse “obrigado”. Não disse “bem-vinda à família”. Apenas estendeu a mão aberta, depositando algo frio e metálico na palma dela. Uma chave moderna, de metal escovado, presa a um chaveiro de couro sem marca. — Minha cobertura. Mude-se hoje — sua voz era um comando baixo, desprovido de qualquer emoção. — Suas coisas podem ficar no ateliê. Você, não. Ele se virou e caminhou em direção à porta. O metal da chave começou a gelar a pele de Amélie, seu peso simbólico esmagador. Ela estava prestes a gritar, a atirar aquele objeto profano contra a parede, quando ele parou no umbral e olhou para trás por sobre o ombro. Seu olhar caiu para a mão dela, para as unhas curtas, manchadas com um resquício de pigmento sépia que nenhum solvente jamais removia por completo. Um traço do mundo dela. Uma imperfeição no universo dele. — O anel será entregue amanhã — disse ele, o tom final, absoluto. — Use-o.
Comentar este capítulo
Comentários de "Contrato de Almas" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬