Poeira e Pérolas
Cap. 4 de 22 · 14%

Primeira Página

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O anel apareceu em uma caixa de veludo preto, entregue por um mensageiro com o rosto impassível de quem lida com segredos e fortunas. Amélie a deixou sobre a mesa do ateliê por uma hora, um pequeno mausoléu em meio à desordem criativa de pigmentos e pincéis. Quando finalmente o abriu, não houve um suspiro de encanto, mas um arrepio. A pedra, um diamante de corte impecável, era como um fragmento de gelo. Fria, límpida e montada sobre platina, não era um anel que gritava riqueza; sussurrava poder. Não era uma declaração de amor, mas a marca de um contrato. Amélie o deslizou no dedo anelar. O peso era real, um lembrete constante da corrente invisível que a prendia a Julian Croft. Seu telefone vibrou, uma nota dissonante no silêncio do ateliê. Uma única mensagem. Dele. *Um carro estará aí em vinte minutos. Jantar. Use o vestido que foi entregue.* O vestido estava pendurado na porta, dentro de uma capa de tecido que parecia mais valiosa que todo o seu guarda-roupa. Era de um azul profundo como a noite, com um corte simples e devastadoramente elegante que ela jamais escolheria. Mais uma peça do figurino para a personagem que ela deveria se tornar. Sereia. Serena. Tudo o que não era. Vinte minutos depois, o sedan preto aguardava no meio-fio, os vidros escuros como a água de um rio profundo. O motorista abriu a porta sem uma palavra. Julian já estava lá dentro, uma silhueta no canto oposto do espaçoso banco de couro. O interior do carro cheirava como seu escritório: a nada. Apenas ar climatizado e o aroma limpo do poder. — Boa noite, Amélie — disse ele, a voz neutra. Seus olhos cinzentos percorreram o vestido, desceram até a mão dela e pousaram no anel. Um aceno de cabeça quase imperceptível. Aprovação. Paris deslizava pelas janelas, um filme mudo e distante. Amélie estava ciente apenas do espaço que os separava, um vácuo carregado de uma eletricidade fria. Ela sentia seu olhar mesmo quando ele não a olhava, uma avaliação constante que media sua compostura. Ele estava inspecionando sua mais recente aquisição. O carro parou. Antes que o motorista pudesse se mover, Amélie viu. Flashes. Explosões de luz branca que rasgavam a noite, transformando a calçada em um palco intermitente. — Respire. — A voz dele foi um comando baixo, rente ao seu ouvido, fazendo-a pular. — Cabeça erguida. E olhe para mim, como se não houvesse mais ninguém no mundo. A porta se abriu para o caos. Uma muralha de som, de luz, de corpos. Perguntas gritadas se sobrepunham, uma cacofonia faminta. — Monsieur Croft! É ela a noiva misteriosa? — Por que todo esse segredo? Amélie sentiu o ar abandonar seus pulmões. Era pior, muito pior do que qualquer pesadelo. Era uma emboscada, um ataque. A mão de Julian pousou na base de suas costas, o toque firme e quente através da seda fria, guiando-a para fora do casulo do carro. Seu corpo tornou-se um escudo parcial contra a horda. — Sorria — ele murmurou, a ordem disfarçada de sugestão. Impossível. Seus lábios se recusavam a obedecer, a face congelada em uma máscara de pânico. Os flashes a cegavam, a multidão se aproximava, uma onda humana prestes a engoli-los. Ela era um cervo paralisado pelos faróis. Então, uma voz mais alta, mais cruel, cortou o barulho: — Mademoiselle Dubois! É verdade que você era só uma restauradora falida antes de fisgar o maior peixe de Paris? A pergunta a atingiu como um soco no estômago. *Restauradora falida*. A frase a despiu, reduzindo sua paixão, sua arte, sua vida, a um golpe mesquinho. O sorriso forçado morreu. O ar não entrava. O pânico a sufocou. Era isso. Era assim que a veriam para sempre. Uma impostora. Uma fraude. Ela parou de andar, um passo em falso que o mar de repórteres percebeu como sangue na água. Nesse instante, tudo mudou. A mão de Julian em suas costas deslizou para sua cintura, o aperto tornando-se possessivo, inabalável. Num movimento fluido e decisivo, ele a puxou contra si, virando-os para que seu próprio corpo a protegesse. Por um segundo vertiginoso, o mundo encolheu para o cheiro limpo de seu paletó e a solidez de seu peito contra o braço dela. Ele se inclinou, a boca tão próxima de sua orelha que o hálito quente causou um arrepio em sua pele. — Não olhe para eles — a voz dele não era mais um murmúrio, mas um rosnado baixo, um comando vibrante. — Olhe. Para. Mim. Obedecendo por puro instinto, Amélie ergueu a cabeça. Seus olhos se chocaram com os dele. O cinza calmo havia se transformado em uma tempestade. Havia uma fúria ali, controlada, mas letal, e não era dirigida a ela. Era por ela. Contra eles. Para as câmeras, era a imagem de um noivo protetor. Mas ela estava perto demais. Viu o músculo tenso em sua mandíbula, a chama gélida de raiva pura. Não havia cálculo naquele gesto; havia apenas uma ferocidade primitiva. Ele segurou seu olhar, uma âncora no meio da tormenta, até sentir que ela respirou de novo. Então, sem quebrar o contato visual, ele ergueu a mão livre em um gesto de desdém régio para a multidão, que recuou um passo. Puxando-a consigo, ele atravessou a calçada e os levou para dentro do santuário silencioso do restaurante. A porta se fechou. O mundo desapareceu. O silêncio era uma bênção e uma tortura. Julian a soltou. O calor se foi, e o frio retornou, mais intenso. Ele se sentou à mesa reservada, ajustando os punhos da camisa. O controle perfeito, a máscara de volta ao lugar, como se o homem que a defendera lá fora nunca tivesse existido. Amélie sentou-se, as mãos tremendo sob a mesa, fora de vista. O anel em seu dedo parecia ter o peso de uma âncora. Ela o odiava. Odiava Julian por aprisioná-la, por comprá-la, por forçá-la a essa humilhação. Mas o calor fantasma de sua mão ainda queimava em sua cintura, e a imagem de seus olhos, um escudo de fúria erguido em sua defesa, se recusava a desaparecer. Ele a salvara do jeito dele. Protegendo a narrativa. Protegendo seu investimento. Tinha que ser só isso. Então por que, ao encarar o homem frio e impenetrável do outro lado da mesa, tudo o que ela conseguia sentir era o eco daquele rosnado protetor e uma pergunta aterrorizante: quem era aquele homem que a defendera lá fora? E por que, por um único e terrível segundo, ela havia se sentido segura em seus braços?
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