Quando o Inverno Acabar
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O Gosto Amargo da Herança

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A terra bateu no caixão em três golpes secos. Laura Bittencourt contou sem querer. No primeiro, a fita preta de uma coroa tremeu com a garoa. No segundo, barro respingou na barra do casaco dela. No terceiro, Pedro Bittencourt abaixou a cabeça e começou a mexer no botão solto da manga, como se pudesse consertar alguma coisa naquele dia. O cheiro de flores molhadas cobria tudo. Até o chocolate deixado junto às rosas brancas parecia sem vida, embrulhado num papel dourado que Dona Cecília Bittencourt guardava na cozinha para ocasiões importantes. Laura enfiou a mão no bolso do sobretudo e encontrou a chave antiga da fábrica. A avó tinha colocado ali na noite anterior à internação, sem abraço, sem discurso. Só empurrou o metal contra a palma da neta e disse: — Não deixa venderem o que a gente queimou a vida pra manter de pé. Agora a chave pesava mais que qualquer despedida. Ricardo Bittencourt ficou ao lado dela durante a última oração. Não chorou. Ajeitou a gravata, tirou um fiapo invisível do punho da camisa e olhou para o relógio duas vezes. Quando todos começaram a se afastar, ele se aproximou. — Laura, precisamos conversar antes da leitura. Ela não tirou os olhos da cova. — Depois. — Depois pode ser tarde. Pedro levantou a cabeça. — Hoje não, Ricardo. O sorriso de Ricardo apareceu sem chegar aos olhos. — Sempre defendendo causas perdidas. — E você sempre com pressa perto de caixão. Laura olhou para Pedro. Ele voltou ao botão da manga, mas não recuou. Do outro lado do túmulo, um homem de casaco escuro permanecia afastado da família. Alto, imóvel, sem guarda-chuva, como se a chuva não tivesse permissão para incomodá-lo. Laura reconheceu Gabriel Monteiro pelas fotos em páginas de negócios e pelas frases atravessadas que Dona Cecília soltava quando alguém mencionava compradores, dívidas ou salvação fácil demais. Gabriel não se aproximou. Não ofereceu condolências. Apenas observou a cova sendo fechada, as mãos cruzadas à frente do corpo. Laura apertou a chave até a borda marcar sua pele. — Você convidou ele? — Pedro perguntou, baixo. — Eu nem sabia que ele conhecia o caminho do cemitério. Ricardo ouviu. O canto da boca subiu quase nada. — Sua avó conhecia mais gente do que contava. A frase ficou ali, fria como a garoa. Duas horas depois, no escritório de advocacia, Laura ainda sentia barro na barra do casaco. A sala era escura demais para o meio da tarde. Livros alinhados, madeira antiga, uma bandeja de café intacta. O aquecedor no canto fazia um barulho cansado, como se também preferisse estar em outro lugar. Laura sentou-se diante da mesa. Pedro ficou à esquerda, inquieto. Ricardo escolheu a poltrona perto da janela, de onde via a porta e todos os rostos. Natural nele: nunca entrar em uma sala sem calcular a saída. Gabriel Monteiro entrou por último. O advogado se levantou. — Sr. Monteiro. Gabriel respondeu com um aceno breve e ocupou a cadeira vazia ao lado de Laura. O casaco dele trouxe cheiro de chuva e café forte. Laura arrastou a própria cadeira alguns centímetros para o lado. A perna raspou no piso, alto demais. Gabriel notou. Não sorriu. Não pediu desculpas. Só pousou a pasta de couro sobre os joelhos, tranquilo demais para alguém chamado ao testamento de uma mulher que acabara de ser enterrada. O advogado abriu uma pasta grossa. — O testamento de Dona Cecília Bittencourt foi registrado e atualizado há pouco mais de seis meses. Todos os presentes foram chamados por determinação expressa dela. — Seis meses? — Laura colocou a chave antiga sobre a mesa. — Ela estava em tratamento há seis meses. — Ainda respondia por todos os seus atos. Ricardo cruzou as pernas. — Claro que respondia. Pedro lançou a ele um olhar duro. O advogado começou. Casa, contas, objetos pessoais, pequenas doações a funcionários antigos. As frases formais tinham, aqui e ali, a voz da avó escondida dentro delas. A batedeira de cobre ficava para Pedro, que sempre roubara massa quente sem deixar rastro. Pedro esfregou o nariz com o dorso da mão e olhou para o chão. Então veio a fábrica. O advogado virou uma página. O som do papel pareceu cortar a sala. — Deixo a Laura Bittencourt a totalidade das minhas quotas e direitos de voto relativos à fábrica de chocolates da família, sob a condição de que contraia casamento civil com Gabriel Monteiro no prazo máximo de trinta dias a partir da abertura deste testamento. Nada se moveu. O aquecedor tossiu no canto. Um carro passou lá fora sobre poças. Na mesa, a chave refletiu uma linha torta de luz. Laura estendeu a mão. — Me dá isso. O advogado hesitou. — Dra. Laura… — Agora. Ele entregou o documento. Laura procurou a assinatura. Estava ali, firme, sem tremor. A letra de Dona Cecília. A vontade de Dona Cecília. A armadilha de Dona Cecília. Pedro se levantou tão rápido que a cadeira bateu na parede. — Isso é brincadeira? Ricardo descruzou as pernas devagar. — Ela sempre gostou de teatro. Laura não olhou para ele. Virou-se para Gabriel. — Você sabia? — Fui chamado para a leitura. — Não foi isso que eu perguntei. Gabriel apoiou os dois pés no chão. A calma dele irritava mais que uma mentira. — Não sabia dos termos. — Que conveniente — Ricardo murmurou. Gabriel nem desviou os olhos. Laura empurrou o papel de volta. — E se eu recusar? O advogado separou outra folha. — As quotas permanecem bloqueadas. A dívida da fábrica vence em cascata. Sem controle definido, os bancos podem pedir execução. Há também uma autorização condicionada de aporte privado do Sr. Monteiro, vinculada ao casamento. Pedro apoiou as duas mãos na mesa. — Tem gente trabalhando lá hoje. Tem fornecedor esperando pagamento. Vocês estão falando de casamento como se fosse aluguel. — Tecnicamente… — Não termina essa frase. Laura ficou de pé. A chave continuou na mesa, entre ela e Gabriel. — Eu vou impugnar. O advogado fechou parte da pasta. — É seu direito. Mas uma disputa judicial suspende a administração. A fábrica não tem caixa para atravessar dois meses. A palavra caixa acertou Laura onde a raiva não alcançava. Ela pensou nos funcionários antigos. Nas portas de aço abrindo antes do sol. No cheiro de chocolate quente grudado no cabelo de Dona Cecília. Pensou na chave em sua mão pequena, muitos anos antes, quando a avó lhe dissera que fábrica não era prédio, era gente. Ricardo se levantou e veio até ela. A voz baixou, quase carinhosa. — Você não precisa se meter nessa sujeira. Me dá uma procuração. Eu converso com bancos, fornecedores, quem precisar. Você cuida do inventário, respira, enterra sua avó direito. Laura tocou a chave com a ponta do dedo. — Uma procuração ampla? — O bastante para proteger a família. — Qual parte da família? O rosto dele não mudou. Só o maxilar apertou uma vez. — Cuidado, Laura. Orgulho custa caro quando o caixa está vazio. Ela pegou a chave e fechou os dedos em torno dela. — Então vou economizar confiança. Pedro pegou o casaco. — Eu vou para a fábrica. O pessoal da temperagem já deve estar inventando santo novo pra rezar. — Pedro. Ele parou na porta. — Se eu não aparecer, alguém deixa o chocolate passar do ponto. E Dona Cecília volta só pra me xingar. A porta fechou atrás dele. Laura respirou uma vez, curta. — Quero todos os anexos. Dívidas, contratos, garantias, laudos. Hoje. O advogado apertou os lábios. — Parte dos documentos está na fábrica. — Então amanhã cedo eu começo por lá. Ricardo deu um passo. — Não transforma isso numa guerra. Laura guardou a cópia do testamento na bolsa. — Você já veio armado. Gabriel se levantou pela primeira vez desde a leitura. Abotoou o paletó com um gesto calmo demais. — Também estarei na fábrica. Laura virou-se para ele. — Não. Você vai ficar longe até eu entender que tipo de acordo fez com a minha avó. — Não fiz acordo com ela. — Então por que o seu nome está amarrado ao meu? Gabriel pegou a própria cópia, dobrou a folha com precisão irritante e enfim olhou para Ricardo. — Talvez ela tenha desconfiado de pessoas que sorriem em enterros. Ricardo riu sem humor. — Bonito. Ensaiou no caminho? — Não falo para plateia. Laura entrou entre os dois antes que a sala ficasse menor. — Chega. Saiu levando a pasta contra o corpo. O corredor parecia mais estreito do que antes. Uma lâmpada piscava perto da porta de vidro. Atrás dela, passos vieram sem pressa. — Laura. Gabriel. Ela parou sem se virar. Lá fora, a garoa grudava nos carros estacionados. — Você manipulou uma mulher doente — ela disse. — Não. — Comprou a confiança dela? — Também não. Laura se virou. De perto, Gabriel parecia menos uma foto fria de revista e mais um problema real: voz baixa, olhos atentos, sapatos caros sujos de chuva. Uma gota escorreu do cabelo dele até a gola do casaco. — Então me dá uma razão para o seu nome estar no testamento da minha avó. Ele fechou a pasta de couro. O estalo do fecho soou definitivo. — Amanhã você terá acesso aos números. Depois me acusa com mais material. Ela abriu a porta. O frio entrou e levantou a borda dos papéis dentro da bolsa. — Eu não vou casar com você. Gabriel segurou a porta para que ela passasse. A mão dele ficou firme no metal, perto o bastante para bloquear o vento, longe o bastante para não tocá-la. — Nos vemos na fábrica amanhã, Sra. Monteiro.
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