Quando o Inverno Acabar
Cap. 2 de 20 · 5%

Território Inimigo

8 min de leitura
A porta de aço da fábrica subiu gemendo, como se também tivesse passado a noite acordada. Laura Bittencourt ficou parada sob o frio da manhã, a chave antiga apertada na mão. O cheiro de cacau torrado veio primeiro, doce e familiar. Depois veio o resto: metal úmido, piso lavado às pressas e um azedo discreto, de leite queimado, escondido no ar como uma notícia ruim. — Bom dia pra você também — disse Pedro Bittencourt, atrás dela. Ele vinha do galpão com o avental manchado de chocolate e uma prancheta debaixo do braço. Tinha olheiras, cabelo amassado pela touca e o humor de quem já havia brigado com uma máquina antes das sete. Laura destrancou a porta lateral. — Dormiu aqui? — Quase. A temperadeira dois resolveu cuspir chocolate às quatro e meia. Parecia filme de terror, só que com gordura vegetal. — Consertou? — Eu e duas chaves inglesas. Uma ajudou mais que a outra. Ele tentou sorrir. Não conseguiu até o fim. O escritório da administração parecia menor sem Dona Cecília Bittencourt. A mesa grande continuava no centro, com o canto gasto onde a avó batia a caneta quando alguém dizia besteira. Havia caixas de arquivo contra a parede, uma cafeteira desligada e um calendário preso no mês anterior. E Gabriel Monteiro estava junto à janela. Sem casaco, mangas dobradas, ele lia uma planilha impressa como se tivesse nascido ali. Sobre a mesa, uma pasta preta aberta já ocupava o lugar que Laura esperava encontrar vazio. Ela largou a bolsa na cadeira. — Quem abriu pra você? Gabriel virou uma página. — A doca. Pedro franziu a testa. — A doca fica trancada. — Não hoje. Laura tirou a folha da mão dele. — Você chegou antes de mim no meu primeiro dia? — Nosso primeiro dia — ele corrigiu. Ela apoiou a folha na mesa com força. — Não existe “nosso”. Gabriel apontou para o calendário. Três datas estavam circuladas em vermelho. — Para o banco existe. Pedro soltou uma risada sem graça. — Começou bonito. Laura abriu a pasta. Extratos, notas fiscais, contratos, recibos de empréstimo. Tudo separado por mês, com anotações pequenas nas margens. A letra de Gabriel era firme demais. Limpa demais. Aquilo a irritou mais do que deveria. — Você mexeu nos arquivos da minha avó. — Mexi nos arquivos da fábrica. — Sem autorização. — A fábrica não tem trinta dias para discutir etiqueta. Laura ergueu o rosto. — Cuidado com o tom nesta sala. Gabriel colocou uma planilha diante dela. — O tom é o menor problema. Compraram cacau para três meses e produziram para cinco semanas. Pagaram embalagens que não chegaram. Renovaram empréstimo com juros piores. E tem desconto de quase vinte por cento num contrato que vende abaixo do custo. Pedro deu um passo à frente. — “Compraram” quem? Gabriel olhou para ele. — Quem assinou. Laura pegou uma nota fiscal. No rodapé, o carimbo e a assinatura de Ricardo Bittencourt. O barulho das máquinas vinha do galpão, vivo, constante, caro. — Meu tio segurou essa fábrica enquanto Dona Cecília Bittencourt fazia tratamento — ela disse. — Enquanto eu estava em hospital, inventário e audiência. Não vou deixar você transformar esforço em crime só porque combina com a sua narrativa. — Eu não tenho narrativa. Tenho buracos. — Buracos escolhidos a dedo. A mandíbula dele se moveu, como se tivesse engolido uma resposta. — Leia a página três. — Eu leio o que eu quiser. Pedro apertou a prancheta contra o peito. — Laura, ele não conhece a operação. Se atrasou embalagem, a gente improvisou. Se o desconto aumentou, foi porque o caixa travou. Ricardo vinha todo dia. Brigava com fornecedor, banco, transportadora. Não era bonito, mas era o que tinha. — Obrigada — disse Ricardo Bittencourt, da porta. Laura se virou. Ricardo entrou com uma pasta marrom e o celular na mão. Terno escuro, sapatos sem poeira, gravata alinhada demais para uma manhã de fábrica. Tocou de leve o canto gasto da mesa, como se cumprimentasse a ausência da irmã. — Vejo que Gabriel começou sem perder tempo. — Alguém precisava começar — Gabriel disse. Ricardo ignorou. — Vim te poupar dessa recepção, Laura. Tenho reunião com o banco. Posso conduzir. — Com procuração? — ela perguntou. — Com experiência. — Não foi o que eu perguntei. Pedro baixou os olhos para a prancheta. Ricardo pousou a pasta marrom na mesa. — Você acabou de enterrar sua avó, foi jogada num testamento absurdo e agora tem um estranho tratando nossa contabilidade como cena de crime. Entendo sua vontade de provar força, mas orgulho não paga folha. Gabriel pegou uma nota fiscal. — Nem contrato ruim. Ricardo olhou para ele pela primeira vez. — O senhor entende de chocolate ou só de comprar empresa machucada? — Entendo de sangramento. — Poético. Coloca isso no cartão. Laura abriu a pasta marrom. Havia resumo de caixa, propostas de renegociação e uma autorização bancária com campos em branco. Ela separou a autorização e a deixou virada para baixo. — Isso não será assinado hoje. O sorriso de Ricardo encolheu. — O vencimento é amanhã. — Então hoje vamos olhar tudo. — Com ele? Laura pegou a caneta de Dona Cecília Bittencourt, a da tampa rachada. Girou uma vez entre os dedos. Não assinou. — Com documentos. Do galpão veio um apito agudo. Pedro virou a cabeça na hora. — A cobertura queimou. Ele saiu antes que alguém respondesse. Laura ficou encarando Gabriel. — Ouviu? Aquilo é a fábrica real. Não planilha. Ele apoiou as mãos na borda da mesa. — Planilha é a fábrica sem cheiro de chocolate para distrair. — Você tem uma frase pronta pra tudo? — Tenho menos frases do que dívidas aqui. Ricardo soltou uma risada baixa. — Laura, ele vai desmontar cada decisão até parecer que só existe uma saída: ele. Sua avó caiu nessa conversa por algum motivo. Você não precisa cair também. Gabriel virou devagar. — Cuidado. — Com a verdade? — Com Dona Cecília Bittencourt na sua boca. O silêncio caiu pesado. Laura sentiu a chave antiga bater contra sua perna dentro do bolso. — Chega. Os dois. Ricardo guardou o celular. — Vou tentar ganhar prazo com o banco, apesar do espetáculo. — Sem oferecer nada em meu nome — Laura disse. Ele inclinou a cabeça. — Você sempre foi ótima com palavras. Quero ver quando pedirem dinheiro. Antes de sair, parou ao lado de Gabriel. — Se quer ajudar, não chute portas que outros mantiveram abertas. Gabriel não respondeu. Quando Ricardo se foi, o perfume caro dele ficou brigando com o cacau. Laura puxou uma cadeira, sentou e abriu o primeiro extrato. Gabriel permaneceu de pé por alguns segundos. Depois trouxe outra cadeira e sentou do outro lado. — Não preciso de plateia — ela disse. — Ótimo. Eu vim trabalhar. Ela empurrou metade da pilha para ele. — Nada sai desta sala. — Combinado. — Nada de falar com banco. — Hoje? Laura ergueu uma sobrancelha. Gabriel segurou o olhar dela por um segundo a mais do que o necessário. — Combinado. Por quase uma hora, só houve máquina, papel e calculadora. Laura somava, riscava, voltava. Gabriel separava notas por fornecedor. Em dado momento, colocou diante dela um recibo duplicado sem dizer nada. Laura conferiu. Mesmo valor. Mesma data. Dois lançamentos. — Pode ser erro do banco. — Pode. — Ou reembolso. — Pode. Ele não parecia satisfeito. Não parecia vencedor. Isso a desarmou por um instante. Pedro voltou perto das nove, com o rosto marcado de vapor e uma barra quebrada num guardanapo. — A cobertura escapou — disse, largando o chocolate na mesa. — Se alguém quiser mastigar a metáfora. Laura provou um pedaço. Amargo demais. Gabriel também provou. Fez uma careta mínima. — Passou da temperatura. Pedro cruzou os braços. — Uau. Temos um especialista. — Temos um prejuízo. — Você é sempre divertido assim ou hoje é promoção? Laura deixou o chocolate de lado. — Pedro, preciso do inventário físico do estoque. Hoje. — Hoje tenho produção, forno dando chilique e gente perguntando se recebe sexta. — Então me dá a chave e eu conto. Pedro hesitou. Depois tirou um molho do avental e escolheu uma chave pequena, com etiqueta rasgada. — Se Ricardo perguntar, eu não entreguei. — Se Ricardo perguntar, eu respondo. Pedro olhou para Gabriel. — E ele não entra sozinho. Gabriel pegou o paletó. — Perfeito. Vamos todos. No estoque, o frio era seco. Sacos de cacau, caixas de embalagem, latas, etiquetas antigas. Laura lia datas e quantidades. Gabriel anotava. Pedro abria caixas com uma faca e pouca paciência. Na terceira fileira, a contagem parou. — Cadê os outros vinte sacos? — Laura perguntou. Pedro conferiu a prancheta. — Devem estar no fundo. Não estavam. Gabriel mostrou a nota. — Foram pagos há onze dias. Pedro coçou a nuca. — Então não entregaram tudo. — E alguém deu baixa como entregue — Gabriel disse. Laura puxou a nota. O carimbo da administração estava ali. Ricardo. O zumbido da lâmpada pareceu crescer. — Isso não prova nada — ela disse. Gabriel não discutiu. Apenas entregou outra folha. — Relatório completo. Compra sem entrega, pagamento duplicado, desconto abaixo do custo, baixa de estoque que nunca entrou. Tudo nos últimos quatro meses. Laura folheou rápido. Setas, datas, valores. Limpo demais. Pronto demais. — Você preparou isso antes de pisar aqui. — Preparei depois que sua avó me pediu para olhar os números. A voz dele saiu baixa. Quase cansada. Laura sentiu a raiva vir porque era mais fácil do que sentir medo. — Minha avó morreu, deixou um casamento forçado no meu colo, e agora você aparece com um relatório perfeito dizendo que meu tio afundou a fábrica. Conveniente de novo. — Leia antes de defender. — Eu vou ler quando eu escolher. — A fábrica talvez não tenha esse luxo. Laura abriu a porta do estoque. O ar quente entrou com cheiro de açúcar queimado. — Então traga outra armadilha, Gabriel. Essa veio bem embalada demais. Ela jogou o relatório sobre um carrinho vazio. As folhas se espalharam entre os sacos de cacau que não deveriam estar faltando.
Comentar este capítulo
Comentários de "Território Inimigo" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬