Quando o Inverno Acabar
Cap. 5 de 20 · 20%

O Peso das Memórias

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O relógio antigo do hotel bateu duas vezes. Na terceira, engasgou. Laura Bittencourt ergueu os olhos dos papéis. Do outro lado da mesa, Gabriel Monteiro encarava a mesma cláusula havia minutos, a caneta parada entre os dedos, como se a tinta tivesse secado junto com ele. O salão quase vazio cheirava a madeira encerada, café velho e chuva. Lá fora, Gramado parecia feita de vidro escuro, com a garoa escorrendo pelas janelas e o frio empurrando frestas invisíveis para dentro. Laura tinha o casaco úmido jogado no encosto da cadeira, três vias do aditivo abertas à frente e uma paciência que diminuía a cada segundo. Gabriel riscou uma linha já corrigida. Laura puxou a folha antes que ele estragasse outra cópia. — Essa parte já foi. Ele olhou para o papel como se tivesse acabado de voltar de muito longe. — Foi. — Então por que riscou de novo? A caneta escorregou dos dedos dele e rolou até bater no pires da xícara. — Hábito. — Hábito é pedir café sem açúcar. Isso é desperdício de tempo. Gabriel pegou a xícara, levou à boca, fez uma careta discreta e devolveu sem beber. A gravata estava torta. A camisa ainda tinha a marca amassada de uma noite sem descanso. Não era vaidade que faltava nele. Era presença. Laura juntou as folhas com o antebraço. — Nós viemos até aqui porque você disse que seria melhor fechar isso antes da vistoria. Ricardo Bittencourt enfiou o nome dele no contrato, Gabriel. Se amanhã cedo a carga não sair, a fábrica perde a semana. Se você pretende ficar olhando para a parede, eu volto agora e resolvo por telefone. Ele abriu o notebook. Digitou a senha. Errou. Apagou. Digitou de novo. Errou outra vez. Laura fechou os olhos por um instante. — Me dá isso. — Não. — Você acabou de errar a própria senha duas vezes. — Três. A resposta veio baixa. Sem ironia. Sem aquela ponta afiada que ele costumava usar para manter todo mundo a uma distância segura. Laura parou. O celular dele vibrava virado para baixo havia quase uma hora. Ele não tinha atendido, nem olhado. O casaco continuava fechado até o último botão, mas as mãos estavam frias demais para alguém sentado perto da calefação. — Você bebeu? — ela perguntou. Ele soltou uma risada sem força. — Infelizmente, não. — Dormiu? — Também não. — Ótimo. Estamos colecionando respostas inúteis. Gabriel se levantou de repente. A cadeira arranhou o piso e o som pareceu alto demais no salão silencioso. Um casal perto da lareira apagada virou o rosto. Ele nem percebeu. Pegou apenas a chave do quarto e seguiu para o corredor lateral. Laura ficou sentada por dois segundos, olhando para a pilha de documentos. No topo da primeira folha, onde Gabriel deveria ter preenchido a data do aditivo, havia outro dia rabiscado três vezes. O mesmo número, repetido com tanta força que marcara a página de baixo. Ela passou o dedo sobre o relevo deixado pela caneta. O relógio engasgou de novo. Laura respirou fundo, guardou os papéis na pasta e foi atrás dele. O corredor era estreito, com quadros antigos nas paredes e um tapete gasto no centro. A luz amarela tremia de leve, acompanhando o som da chuva nas janelas altas. Perto da escada, a chave do quarto de Gabriel estava caída no chão. Laura a pegou. — Gabriel? Nada. No fim do corredor, uma porta de vidro dava para um pequeno terraço coberto. O frio entrava pelas frestas e trazia cheiro de pedra molhada. Gabriel estava lá fora, sem casaco agora, as mangas dobradas até os antebraços como se não sentisse a madrugada. Uma mão segurava o corrimão de ferro. A outra apertava a gravata amassada. A garoa alcançava a ponta dos sapatos dele. Laura abriu a porta. — Você vai congelar antes de terminar de me irritar. Ele não se virou. — Volta para dentro. — Eu adoraria. Tenho um contrato, um fornecedor instável e um tio tentando usar a fábrica como tabuleiro. Mas você levou sua chave e deixou seu cérebro no salão. Gabriel soltou o corrimão. O ferro ficou marcado pela umidade da mão dele. — Hoje não é um bom dia. — Para ninguém. — Para mim, menos. Não houve arrogância na frase. Nem pedido de pena. Só cansaço. Laura encostou a porta sem fechar. O vento levantou a barra do vestido dela e fez o frio subir pelos sapatos. Ela quase voltou para dentro. Quase. — Você podia ter dito isso antes de me fazer atravessar meia serra no meio da noite. — Achei que trabalho ajudaria. — Ajudou? Ele olhou para a rua vazia. — Não hoje. Um carro passou lá embaixo, cortando a água acumulada. O som desapareceu rápido, engolido pela chuva. Laura apertou a chave no bolso do casaco. O metal gelado marcou a palma da mão. — A data na folha — disse ela. — Você escreveu três vezes. Gabriel abaixou a cabeça. A gravata balançou entre os dedos. — Eu sei. — É hoje? — Já foi. Tecnicamente. — Gabriel. O nome saiu sem o sobrenome. Menos duro do que ela pretendia. Ele riu pelo nariz, mas o riso quebrou antes de virar som. — Você é péssima fingindo que não vai perguntar. — Eu sou advogada. Perguntar é defeito profissional. — E se eu disser que não quero responder? — Eu continuo irritada com você. Mas paro de insistir. Isso pareceu alcançá-lo. Gabriel virou só um pouco o rosto. A luz do corredor tocava metade dele; a outra metade ficava entregue ao cinza da madrugada. — Foi um acidente — disse, depois de um tempo. — Estrada molhada. Um telefonema que eu não devia ter atendido. Uma curva que eu achei que dava para fazer. Laura não se mexeu. A água pingava da calha em intervalos irregulares. Ploc. Ploc. Silêncio. Ploc. Gabriel passou a gravata pela mão, como se tentasse desamassar não o tecido, mas alguma lembrança. — Eu tinha certeza de muita coisa naquela época. Do meu nome. Do dinheiro. Da família. De que bastava decidir rápido e o mundo saía da frente. — Ele apoiou os dedos na mureta molhada. — Depois disso, aprendi que perder tudo não faz barulho de uma vez. Laura prendeu a respiração sem perceber. — Primeiro some uma voz — continuou ele. — Depois uma casa. Depois as pessoas param de dizer certas palavras perto de você. Como se o silêncio fosse uma gentileza. Ela deixou a pergunta seguinte morrer na boca. Pela primeira vez desde que o conhecera, Gabriel não parecia calculando vantagem, risco ou saída. Parecia apenas tentando ficar de pé. Dentro do hotel, alguém mexeu em louça. Um tilintar pequeno, educado, quase cruel. — Dona Cecília Bittencourt sabia? — Laura perguntou. Ele esfregou a sola do sapato na pedra molhada. — Sabia o bastante. — Foi por isso que colocou você no testamento? — Sua avó não fazia nada por um motivo só. — Isso não é resposta. — É a única que eu consigo te dar hoje. Laura olhou para ele por mais um segundo. A vontade antiga de desconfiar veio, automática. Gabriel tinha segredos. Muitos. E ela ainda não sabia se um homem cheio de buracos podia ajudá-la a salvar alguma coisa. Mas havia algo no jeito como ele evitava encarar a rua. Não era teatro. Teatro ocupava espaço. Aquilo encolhia. Ela tirou a chave do bolso e colocou sobre a mureta, perto da mão dele. — Você deixou cair. Gabriel pegou a chave, mas não se moveu. Laura voltou para dentro. No corredor, o ar quente pareceu agressivo depois do frio. Ela parou diante de uma mesinha com jarra de água, pegou um copo, depois abriu um armário baixo onde havia cobertores dobrados para hóspedes esquecidos pela noite. Quando retornou, Gabriel continuava no mesmo lugar. — O hotel inteiro cheira a móvel velho — ela disse, estendendo o copo. — Mas pelo menos tem cobertor. Ele olhou para a água. Depois para o tecido no braço dela. — Eu não pedi. — Eu também não pedi um marido por cláusula testamentária. Estamos todos improvisando. A boca dele quase formou uma resposta. Não conseguiu. Laura ofereceu o copo primeiro. Gabriel bebeu devagar. Um fio de água escorreu pelo canto da boca, e ele limpou com o dorso do pulso, rápido, sem pose. Depois aceitou o cobertor, mas não o colocou de imediato. Ficou segurando o tecido dobrado, como se o peso bastasse. Ela apoiou o quadril na mureta, deixando entre eles uma distância que não cobrava nada. — Amanhã cedo eu falo com o fornecedor — disse. — Você entra só na parte dos números, se conseguir. — Não preciso de dispensa. — Não é dispensa. É divisão de trabalho. — Você vai usar isso contra mim depois? — Provavelmente. Mas não essa parte. Pela primeira vez naquela noite, o rosto dele perdeu um pouco da rigidez. Não ficou leve. Só parou de se defender de tudo. — Justo. A chuva afinou. No telhado, as gotas viraram um ruído baixo e constante. Gabriel enfim colocou o cobertor sobre os ombros. O tecido escuro desfez a linha dura do terno e o deixou menos intocável. Menos inimigo. Laura recolheu o copo vazio antes que ele tentasse devolvê-lo com formalidade. Ele acompanhou o gesto. Quando falou, a voz veio baixa demais para atravessar qualquer distância que não fosse aquela. — Obrigado, Laura. Sem Bittencourt. Sem ironia. Sem muro. No vidro da porta, o vapor apagou o reflexo dos dois por um instante, e Laura percebeu, com um medo calmo, que talvez a parte mais perigosa de Gabriel Monteiro não fosse o que ele escondia. Era o que ela começava a querer entender.
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