Quando o Inverno Acabar
Cap. 4 de 20 · 15%

Fios de Confiança

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A impressora tossiu três folhas tortas no exato momento em que Laura Bittencourt entrou no escritório, com os sapatos marcados de chuva e a paciência no fim. A reunião com o banco ainda pesava no casaco dela como cheiro de carpete velho. No galpão, o turno da tarde tinha acabado em silêncio, depois da explicação que ela dera aos funcionários. Ninguém aplaudira. Ninguém discutira. Alguns só haviam voltado ao trabalho com a cabeça baixa, como quem guarda perguntas para quando a esperança já não parecer tão frágil. Gabriel Monteiro entrou atrás dela, tirando o paletó. A manga da camisa ainda tinha a mancha de grafite do dia anterior, agora atravessada por um risco seco de chocolate. — O banco pediu garantia demais — ele disse. Laura largou a pasta sobre a mesa. — O banco pediu a fábrica inteira embrulhada com laço. — E você disse não. — Eu disse não nesses termos. Existe diferença. — Uma diferença que custa tempo. Ela abriu a pasta e puxou os papéis. — Tempo também se negocia. A impressora gemeu de novo. Gabriel pegou a folha antes que ela escorregasse para o chão. Leu a primeira linha e ficou parado. Laura percebeu. — O que foi? Ele entregou o papel sem responder. O aviso era curto, educado e cruel. O fornecimento de cacau da semana seguinte ficaria suspenso por risco comercial elevado e instabilidade administrativa. Sem aquela entrega, três pedidos grandes quebrariam antes mesmo de começar. Laura leu duas vezes. Na terceira, sua mão apertou a folha. — Esse fornecedor nunca atrasou. — Justamente por isso escolheram ele. Gabriel já abria o notebook. — O contrato prevê multa por suspensão sem causa. — Também prevê reavaliação de crédito em caso de risco público relevante — ela disse, sem tirar os olhos do papel. — A matéria de Patrícia Vasconcelos. — A matéria foi a desculpa. Alguém fez a ligação. Gabriel pegou o telefone fixo. Laura segurou o pulso dele antes que completasse a chamada. O toque foi breve. Pele contra pele, calor contra cansaço. Ele olhou para a mão dela. Laura soltou depressa demais. — Eu falo. — Ele vai tentar te empurrar para pagamento antecipado. — Melhor. Quem empurra mostra onde está pisando. Gabriel inclinou a cabeça, como se entregasse a faca, mas continuasse atento à lâmina. — Viva-voz. Ela apertou o botão. A linha chamou cinco vezes. Quando a voz do fornecedor atendeu, havia barulho de estrada ao fundo e uma desculpa pronta na garganta. — Laura Bittencourt, recebi seu retorno. Imagino que tenha visto nosso comunicado. — Vi. Também notei que foi enviado às dezoito e doze, depois do expediente bancário. Bem escolhido. Do outro lado, houve uma tosse seca. — Não foi pessoal. Minha diretoria revisou a exposição. Gabriel escreveu num papel: Quem acionou? Laura leu, virou a folha para baixo e apoiou os dedos sobre ela. — Sua diretoria revisou sozinha ou alguém sugeriu? — O mercado comenta. — O mercado agora telefona? Silêncio. Um caminhão passou roncando perto da linha. — Ricardo Bittencourt nos procurou — disse o fornecedor, por fim. — Falou em disputa interna. Disse que a senhora ainda não tinha controle formal e que Gabriel Monteiro poderia usar nosso contrato como pressão. Eu não posso colocar carga na estrada no meio disso. Gabriel apoiou as duas mãos na mesa. Não disse nada. Mas o maxilar dele travou. Laura puxou uma cadeira e não se sentou. — Ricardo Bittencourt não administra esta fábrica. — Com todo respeito, até semana passada ele assinava muita coisa. — Semana passada acabou. — Papel aceita frase bonita. Caminhão não. Gabriel escreveu outro bilhete: parcial + garantia + vistoria. Laura pegou a caneta, riscou garantia, escreveu conta vinculada, entrega fracionada, visita amanhã. Ele leu. Bateu uma vez com o dedo na mesa. Aprovado. — Vamos fazer assim — Laura disse. — Você libera metade da carga amanhã cedo. O pagamento correspondente fica separado em conta vinculada, com comprovante antes do caminhão sair. A outra metade sai depois de uma vistoria sua aqui. Você vê produção, estoque, pedidos e assina um aditivo de segurança sem mexer no preço base. — Conta vinculada demora. — Eu redijo em vinte minutos. Gabriel monta o fluxo em dez. Ele já digitava. — E se a vistoria mostrar buraco? Laura olhou para o nome borrado no alto da folha. — Aí você reduz volume. Não rompe contrato. Romper agora derruba pedido, funcionário e credor. E eu não vou deixar ninguém vender essa queda como prudência. A linha chiou. — Ricardo disse que a senhora ia ameaçar processo. — Eu estou oferecendo trabalho. — E se eu disser não? Gabriel virou o notebook para Laura. Na tela, uma tabela limpa: pedidos comprometidos, margem, perdas por atraso, opção de cacau inferior, custo de parada. No rodapé, uma linha em vermelho: preservar cliente principal por doze dias. Laura passou a ponta da caneta pela borda da tela. — Se você disser não, eu compro de um fornecedor menor, reduzo a linha premium e mantenho o cliente principal. Você não perde só a entrega de amanhã. Perde a safra inteira quando a fábrica se reerguer. — Isso é ameaça. — Não. Ameaça teria adjetivo. Isso é consequência. Do outro lado, veio uma risada curta, quase sem vontade. — Dona Cecília Bittencourt falava parecido quando queria desconto. O nome da avó atravessou o escritório e ficou entre eles, junto do cheiro de papel quente e cacau frio. Laura passou o polegar pela tampa rachada da caneta antiga. — Ela teria pedido prazo com bolo na mesa — disse. — Eu só tenho café ruim e uma impressora falhando. Gabriel parou de digitar por um segundo. O fornecedor respirou fundo. — Mande a minuta. Tenho caminhão parado até oito da manhã. Se o dinheiro estiver separado e a vistoria for aberta, libero metade. — Preciso de duas horas. — Tem uma. — Uma hora e quarenta. — Uma e quinze. Laura dobrou a folha com calma. — Uma e meia. E você recebe o mapa da carga por lote. Uma pausa. — Fechado. A ligação caiu. Gabriel puxou o notebook de volta. — Você acabou de comprar noventa minutos com uma caneta quebrada e uma insolência admirável. — Caneta da minha avó. Respeita. — A insolência também era dela? — Nos dias bons. Ele riu baixo. O som saiu sem defesa, pequeno no escritório grande. Às dezenove e cinquenta, metade das luzes da fábrica já estava apagada. Laura redigia a minuta enquanto Gabriel reorganizava a produção. Quando ela errava uma cláusula, arrancava a folha do bloco e começava de novo. Quando ele encontrava um número errado, riscava a célula com força demais e refazia a planilha. — Você não precisa imprimir tudo — ele disse, depois da quarta versão. — Preciso ver no papel. — Por quê? — Porque na tela todo erro parece educado. Gabriel aceitou sem discutir. Foi até a impressora, voltou com as páginas quentes e as deixou ao lado dela, alinhadas. Laura revisou linha por linha. Ele não tomou a caneta da mão dela. Só apontou um prazo que amarraria o caixa por tempo demais. — Isso aqui mata a segunda semana — disse. — Se eu tirar, ele recua. — Troca por multa progressiva. Ele ganha segurança. Você não entrega o pescoço. Ela riscou. Reescreveu. A ponta da caneta falhou no meio da palavra. Gabriel abriu a gaveta da antiga mesa de Dona Cecília Bittencourt, encontrou um tinteiro esquecido e colocou perto dela. — Ainda funciona? Laura testou numa margem. A tinta saiu grossa, azul-escura, viva. — Funcionava quando eu tinha oito anos. — Você assinava contratos aos oito? — Receitas. Minha avó dizia que receita boa também é contrato. Se você promete trufa de laranja, não pode entregar brigadeiro com casca. Gabriel encostou no armário, braços cruzados. — Trufa de laranja é uma promessa séria. — Você gosta? — Quando não usam a laranja para esconder açúcar ruim. — Esnobe. — Preciso ser. Chocolate ruim é uma ofensa lenta. Laura tentou continuar escrevendo, mas a caneta ficou suspensa. — Eu gostava do som da casca raspando no ralador — disse ela. — Antes da mistura. Era quando eu sabia que a cozinha ia virar alguma coisa. Gabriel pegou uma lasca de chocolate esquecida num pires e partiu ao meio. — Eu gostava do primeiro cheiro do cacau quente. Não do doce. Do amargo. Minha mãe dizia que eu tinha paladar de velho. A palavra mãe saiu baixa demais. Ele mastigou a lasca e voltou para a tela. Laura não perguntou. Também não fingiu que não ouviu. — Dona Cecília dizia que chocolate começa amargo para ninguém esquecer de trabalhar. — Ela me disse isso uma vez. A caneta de Laura parou. — Quando? Gabriel conferiu um número que já estava certo. — Antes de eu aprender a escutar. Ela deixou a pergunta quieta. Pela janela, a chuva riscava o vidro, contando o tempo que eles não tinham. Às vinte e uma e dezessete, a minuta foi enviada. Às vinte e uma e quarenta, veio o primeiro pedido de ajuste. Às vinte e duas e cinco, Gabriel cortou a linha menos rentável e salvou o pedido principal. Às vinte e três e vinte, Laura refez o aditivo pela terceira vez e incluiu a vistoria sem abrir os livros internos. Meia-noite passou sem cerimônia. Quando a resposta chegou com a palavra aceito, o café já era uma mancha fria no fundo da jarra e a fábrica parecia respirar mais devagar. Laura assinou a última página. Gabriel assinou ao lado, como garantia operacional. A assinatura dele era seca. A dela atravessou um pouco a linha, manchada pelo tinteiro antigo. — Ficou feio — ela disse. — Ficou valendo. Ela entregou uma via a ele. Os dedos dos dois se tocaram no papel recém-impresso. Desta vez, nenhum dos dois se afastou de imediato. Foi só um segundo. Curto demais para virar escolha. Longo demais para ser acidente. Gabriel baixou os olhos para a mão dela. Laura deveria soltar o papel. Não soltou. No corredor, a impressora acordou sozinha. O ruído quebrou o silêncio como uma porta batendo. Laura foi até o aparelho. A folha saiu devagar, quente, com o aviso de remessa no topo. No campo de observação, uma frase havia sido acrescentada depois do aceite: Entrega parcial autorizada mediante confirmação de Ricardo Bittencourt. Gabriel apareceu atrás dela antes que a página terminasse de cair. Laura segurou o papel com tanta força que ele dobrou no meio. — Ele deixou uma coleira no contrato. Gabriel olhou para a frase. Depois, para ela. — E agora ele sabe que nós dois puxamos juntos.
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