A pele no dorso da mão de Elena ainda guardava um calor que não era dela. Um eco fantasma do toque de Matteo Ferrante, deixado ali como a marca de um ferro em brasa. Ela fechou o punho, os nós dos dedos brancos, tentando esmagar a sensação que teimava em formigar sob a pele. A ameaça dele pairava no ar úmido e salgado do cais, mais pesada que a neblina que vinha do mar. *Cuidado para não se arrepender da que vai encontrar.*
Em vez de seguir para o estacionamento, Elena virou na direção oposta, o som de suas botas no asfalto uma batida de guerra solitária. Parou diante do telefone em sua mesa vazia, o aparelho de um cinza burocrático, e discou o número de memória. A chamada cortou o silêncio da madrugada em outro apartamento da cidade. A voz de Sasha atendeu no terceiro toque, turva de sono e afiada de alarme.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa?
— Preciso de você. Arquivo do porto. Agora. — A voz de Elena era desprovida de qualquer gentileza. Era uma ordem forjada em urgência.
Uma pausa no outro lado da linha. O som de lençóis se movendo. — Elena, são três da manhã. O que eu digo se me pegarem fora de casa?
— Que está indo encontrar uma prima insone. — A paciência de Elena já se esvaíra. — É por isso que liguei agora, Sasha. Ninguém vai ver.
Outra pausa, mais longa. A respiração de Sasha era audível. Ela não precisava dizer que estava com medo. O medo estava em cada segundo de seu silêncio.
— Por favor — disse Elena, e a palavra saiu como uma pedra, pesada, um último recurso que ela odiava usar.
Sasha chegou em vinte minutos, encolhida dentro de um moletom largo. Parecia um animal assustado, os olhos varrendo as poças de escuridão no corredor antes de fechar a porta com um clique abafado. Parou a uma distância segura, abraçando o próprio corpo.
— Se o turno da noite nos vê aqui… nós perdemos o emprego, Elena. Na melhor das hipóteses.
— O turno da noite não pisa neste andar. — Elena cortou, já girando sua chave mestra na fechadura do arquivo. O ar que escapou de dentro veio carregado do cheiro de papel velho e tempo. — Têm mais medo dos boatos sobre este lugar do que do chefe.
Ela acendeu a única lâmpada. Um brilho amarelado e doentio inundou os corredores apertados, revelando estantes metálicas que se erguiam até o teto, abarrotadas de fichários e caixas de papelão. Um cemitério de transações, cada pasta uma lápide.
— O que estamos procurando? — A voz de Sasha era um fio. — O que os Ferrante têm que não podia esperar até o sol nascer?
Elena se virou, a luz dura acentuando a determinação em seu rosto. — A verdade. Preciso dos manifestos de carga. Registros de entrada e saída. Tudo dos seis meses em torno… do acidente do meu irmão.
O nome dele pairou no ar mofado. Sasha recuou um passo, como se tivesse levado um empurrão.
— Não. Elena, não faça isso. É suicídio. Você sabe quem fiscaliza cada folha que entra e sai daqui. Quem é o dono de tudo isso.
— Sei. É por isso que você está aqui. Você conhece o sistema deles. Sabe onde eles esconderiam a sujeira.
— Em lugar nenhum! — Sasha sibilou, a voz trêmula de pânico. — Eles queimam a sujeira! Os Ferrante não deixam pontas soltas. Essa sua… essa sua guerra… vai acabar com nós duas. Sabe o que fazem com gente que bisbilhota?
— Ele era seu primo. — As palavras de Elena foram baixas, mas cada sílaba cortava como navalha.
Os ombros de Sasha caíram. A raiva em seu rosto deu lugar a uma dor exausta. — Isso não é justo. Eu também sentia a falta dele. Mas fuçar nisso não vai trazê-lo de volta.
— Talvez não. Mas vai me dar o nome de quem o levou.
Elena ergueu uma caixa pesada da prateleira, o pó acumulado se erguendo numa nuvem preguiçosa. Ela a largou sobre a única mesa de metal, o baque ecoando no silêncio. — Eu não vou te obrigar a ficar. Mas eu não vou embora. Você pode me ajudar a fazer isso em uma noite, ou pode me deixar aqui para levar um mês, aumentando a chance de ser pega a cada minuto. A escolha é sua.
Sasha olhou da porta para a prima, para a poeira dançando sob a luz, para o peso opressor daquele arquivo. Por fim, soltou o ar num suspiro de derrota.
— Seis meses… Qual era o setor dele?
As horas seguintes se dissolveram no farfalhar de papel, na tosse seca de Sasha e no trabalho metódico de abrir, folhear, fechar. Caixa após caixa, a esperança de Elena se convertia numa frustração fria. A burocracia era um labirinto projetado para proteger segredos, não para revelá-los. Era impossível.
O primeiro sinal de luz do amanhecer começava a tingir as janelas altas e sujas do corredor quando Sasha parou. Estava no corredor adjacente, completamente imóvel, segurando um maço de papéis.
— Elena.
A voz dela estava estranhamente neutra. O medo se fora, substituído por uma calma gélida.
Elena se aproximou, o corpo dolorido pelo esforço. Sasha segurava duas folhas unidas por um clipe enferrujado. Eram manifestos de carga, datados de três meses antes do acidente. Mesma carga, mesmo destino. Quase idênticos.
— O que é isso?
— Um manifesto duplicado. Uma carga de autopeças. — Sasha virou os papéis para ela. — Este é o oficial, que foi para o sistema. Limpo. Mas este outro… — ela apontou com o dedo trêmulo — estava dobrado no fundo da caixa, por baixo do fichário. É uma cópia carbono. Quase igual.
Elena pegou as folhas. O papel carbono era fino, frágil. Seus olhos correram pelas linhas, comparando os dois documentos. E então ela viu.
Na parte inferior da cópia carbono, havia uma pequena anotação à mão, espremida no rodapé. Um adendo autorizando uma troca de contêiner de última hora, indicando um peso ligeiramente diferente do declarado. Justificativa: “urgência logística”. Um procedimento irregular. E ao lado, uma rubrica. Elegante, rápida, incisiva.
O coração de Elena tropeçou.
Não era uma assinatura completa. Apenas duas iniciais e um sobrenome abreviado, mas o traço era inconfundível. Ela o vira horas antes, na prancheta dele, sob a luz dos refletores do cais.
Aquele floreio arrogante pertencia ao homem do casaco escuro e da ameaça velada.
M. Ferrante.
O calor fantasma em sua mão se transmutou em gelo. Ele não estava protegendo apenas a carga daquela noite. Ele estava protegendo um método, um padrão de corrupção tão antigo quanto aquele papel amarelado. O homem que controlava as engrenagens, a papelada e, talvez, a vida e a morte naquele porto.
— De quem é? — Sasha sussurrou, o rosto pálido, vendo a expressão de Elena se fechar numa máscara de pedra. — Elena, me diz que não é dele.
Elena não respondeu. Apenas dobrou o papel carbono com uma precisão cirúrgica e o guardou no bolso interno da jaqueta. O gesto transformou um pedaço de carbono frágil em uma arma. Ele pareceu pesar uma tonelada contra seu peito.
— O que você vai fazer? — Sasha insistiu, os olhos fixos no volume que o papel fazia sob o tecido.
— Coloque o outro de volta. Exatamente como estava — foi tudo o que Elena disse, a voz desprovida de qualquer emoção.
A caça não era mais por um fantasma anônimo. Agora, ele tinha um nome, um rosto e uma assinatura. A questão não era mais se havia um monstro nas sombras. A questão era como se prepara uma armadilha para um rei.