O papel carbono no bolso da jaqueta de Elena era uma placa de gelo contra a sua pele. Frio, afiado nas dobras, uma verdade que a cortaria se ela se movesse errado. Passara o resto da madrugada ali, no escritório vazio, não por excesso de trabalho, mas porque sua casa se tornara um lugar estranho, de outra pessoa. Entre o cheiro de café velho e metal dos arquivos, ela podia quase sentir o eco de seu irmão nos corredores, uma memória de seus últimos dias que agora parecia uma acusação.
O telefone tocou às sete em ponto, estridente e invasivo. Não era o ramal interno. Era a linha externa, um número que não reconheceu. O som fez seu coração dar um salto dolorido.
— Kovač.
— Inspetora. Delegado Ferro aqui. Esteja na minha sala em uma hora. — A voz era um cascalho de tabaco e décadas de más notícias. Não era um convite, era uma intimação.
A ligação morreu, deixando um zumbido agudo no seu ouvido. Sem bom dia, sem por favor. Ferro. O nome era uma instituição em Trieste, sinônimo de paciência predatória e uma aversão visceral a qualquer coisa que perturbasse a paz podre da cidade. Ele nunca se interessara por um “acidente de trabalho”. A súbita atenção dele era mais alarmante que a própria ameaça de Matteo.
Antes de sair, um movimento do outro lado da rua capturou seu olhar. Através da janela empoeirada do escritório, com vista para a praça, ela o viu. Matteo Ferrante. Ele não olhava em sua direção. Estava parado ao lado de um sedã preto impecável, o celular pressionado contra a orelha. A luz da manhã reluzia no tecido de um terno cinza-claro, um insulto de perfeição contra o cenário de trabalhadores apressados. Ele riu de algo que ouviu, uma contração silenciosa nos ombros, e então consultou o relógio de pulso com a calma de quem possui o tempo. Poderoso, tranquilo, intocável.
Ele não precisava olhar para cima. A certeza de que ela o observava era parte do seu poder. Uma mensagem entregue sem uma única palavra. *Eu sei o que você fez. E não importa.* Elena recuou da janela, o coração batendo pesado e lento, um tambor surdo contra as costelas. Ele já sabia.
A delegacia não cheirava ao sal do porto, mas a poeira, papelada antiga e ao desinfetante acre que tentava, sem sucesso, limpar o ar estagnado. Eram segredos de homens, não do mar. A sala de Ferro ficava no fim de um corredor mal-iluminado, a porta entreaberta como uma boca que hesita em falar.
Ele não se levantou quando ela entrou. Estava afundado atrás de uma mesa de metal atulhada de processos amarrados com barbante, o cinzeiro transbordando. A janela atrás dele emoldurava telhados cinzentos e um pedaço de céu da mesma cor.
— Inspetora. Sente-se.
Elena permaneceu de pé, as mãos nos bolsos da jaqueta. — Prefiro não demorar, delegado. Tenho um turno a começar.
Ferro pegou um cigarro de um maço amassado. O clique do isqueiro de metal foi o som mais alto na sala. Ele acendeu o cigarro e soltou a fumaça para o alto, um véu azulado que subiu em direção ao teto manchado. O gesto era deliberado, cada segundo um exercício de poder.
— Seu turno pode esperar. Fui informado que você reteve uma carga da Ferrante Logistica ontem à noite. Um contêiner de eletrônicos. Por um erro de digitação.
— O procedimento exige verificação — respondeu ela, a voz neutra.
— Ah, o procedimento. — Ele deu outra tragada longa, os olhos pequenos e astutos fixos nela por trás da fumaça. — Engraçado como o “procedimento” virou seu livro sagrado. Especialmente quando o selo no contêiner é o dos Ferrante.
Elena não respondeu. A ponta de seus dedos roçou o contorno do papel carbono no bolso. O gesto foi mínimo, quase imperceptível, mas os olhos de Ferro se estreitaram. Um canto de sua boca se contraiu.
— Sabe há quanto tempo eu investigo os Ferrante, Kovač? — Ele não esperou resposta. — Mais tempo do que você tem de serviço. Anos. E sabe o que eu aprendi? Que eles são como água. Encontram cada fresta no sistema, cada rachadura na lei, e fluem através dela sem deixar rastro. Eles não cometem erros de digitação. Dar um soco direto em um contêiner deles é como tentar afogar o mar.
Ele se inclinou para a frente, o rosto emergindo da névoa de fumaça. — Você vai conseguir o quê? Nada. Só vai se queimar e atrapalhar quem sabe jogar o jogo.
— Com todo o respeito, delegado — a voz dela era gélida —, se o senhor investiga há tanto tempo sem resultado, talvez seja a sua abordagem que está errada.
O silêncio que se instalou foi pesado, denso. Ferro a estudou, a fumaça subindo entre eles como uma cortina. Ele não parecia ofendido. Havia um brilho de interesse doentio em seu olhar.
— Você tem a mesma arrogância do seu irmão. — As palavras a atingiram como um soco no estômago. — Ele também achava que podia mudar o porto com uma prancheta e um regulamento. Olhe onde ele está agora.
As paredes da sala pareceram se fechar sobre ela. Elena cravou as unhas na palma da mão dentro do bolso. — Não fale dele.
— Eu falo do que eu quiser na minha sala — Ferro cortou, a voz repentinamente dura como aço. — Seu irmão era um bom rapaz. E imprudente. Começou a fazer as perguntas erradas para as pessoas erradas. E você está dançando a mesma música, mas com mais raiva e menos juízo.
Ele se recostou, o momento de dureza passando tão rápido quanto veio. Apagou o cigarro no cinzeiro com uma força desnecessária, esmagando a ponta.
— Eu não preciso de uma heroína, Kovač. Heroínas acabam com uma bala na cabeça ou em um posto de fronteira esquecido por Deus. O que eu preciso... é de um problema para eles. Um incômodo. Alguém que faça barulho, que os deixe nervosos, que os force a se mover. A cometer um erro de verdade.
O ar gelou em seus pulmões. A peça final se encaixou com um clique silencioso e terrível em sua mente.
— O senhor quer me usar como isca.
Ferro sorriu pela primeira vez. Um sorriso fino, sem vida, que não chegava aos olhos. — Isca é uma palavra tão feia. Prefiro pensar em você como uma... variável descontrolada. Uma pedra no sapato lustroso deles. Você já conseguiu a atenção pessoal de Matteo Ferrante. Isso é mais do que eu consegui em dois anos. Não desperdice.
Ele abriu uma gaveta e tirou uma pasta fina de papelão. Jogou-a sobre a mesa. O nome dela, “ELENA KOVAČ”, estava datilografado na etiqueta.
— Oficialmente, você está sob investigação interna por abuso de autoridade. Vou segurar o processo. Vou lhe dar um pouco de corda. Continue seu trabalho. Faça suas inspeções. Faça barulho. Chame a atenção. Mas no primeiro erro, Kovač, o primeiro passo fora da linha que *eu* determinar, eu corto a corda. O processo anda, sua carreira acaba, e eu assumo o caso limpando a sua bagunça. Entendido?
Não era uma aliança. Era uma coleira. Amarrada a uma ameaça.
Elena olhou para a pasta com seu nome, para o homem cínico atrás da mesa, para a cidade opressiva lá fora. Estava sozinha. Mais do que sozinha — era uma peça sendo movida por todos os lados. Pelo seu luto, por Matteo e, agora, pela própria lei.
— Entendido — disse ela, a voz um caco de vidro.
— Ótimo. Agora saia da minha sala. Você tem um contêiner para liberar.
Elena se virou sem outra palavra. Enquanto caminhava de volta pelo corredor, o som de seus próprios passos parecia alto demais no silêncio opressor. Ao sair para a rua, o ar fresco pareceu denso, pesado. O sedã preto de Matteo não estava mais lá.
O delegado lhe dera uma coleira, mas também lhe dera cobertura. Uma licença não oficial para caçar. Ele achava que a controlava, que ela era apenas um peão que ele jogaria na água para atrair o tubarão.
Ela enfiou as mãos nos bolsos, os dedos se fechando ao redor das dobras afiadas do papel. Aquilo era a única coisa no tabuleiro que era inteiramente sua. Ferro não sabia. Matteo não sabia que ela sabia. Era o seu segredo. O seu poder.
O delegado achava que ela era a isca. Mal sabia ele que a isca carregava o anzol.