Sal e Pólvora
Cap. 4 de 17 · 18%

A Medalha no Armazém 4

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A coleira do Delegado Ferro era invisível, mas o peso em seu pescoço era real. Elena liberou o contêiner dos Ferrante com uma assinatura ríspida, a ponta da caneta quase rasgando o formulário. Cada movimento seu, dali em diante, seria um risco calculado. Era a arma de um homem que a desprezava, apontada para um inimigo que a via apenas como um incômodo. A isca perfeita. Quando a noite engoliu o porto, Elena não foi para casa. Estacionou o carro num beco sem saída, um cemitério para caminhões onde a ferrugem florescia em paz. O papel carbono no porta-luvas, com a rubrica de Matteo Ferrante, era uma brasa ardendo no escuro. *M. Ferrante*. O nome atrelado a um manifesto fraudulento, e a um destino: Armazém 4. De lá, ela enxergava o monólito de concreto, impenetrável. Território Ferrante. E, sob seus holofotes, o próprio Matteo. Ele parecia um rei displicente em sua corte de aço, a luz de um tablet banhando seu rosto enquanto gesticulava para dois homens. O poder que emanava dele era tão natural quanto a maresia no ar. Elena sentiu o volante frio sob seus dedos. Aquele controle, aquela calma, era o que ela precisava quebrar. Esperou. Viu os minutos se arrastarem no painel do carro. Uma hora. Duas. O balé de empilhadeiras e homens cessou. O sedã de Matteo partiu, seus faróis varrendo a escuridão antes de sumir na estrada costeira. Só então Elena saiu. Engolida por um casaco escuro, tornou-se apenas um recorte na paisagem industrial. Aproximar-se do Armazém 4 era como se aproximar de uma fera adormecida. O vento assobiava entre os contêineres, um aviso. As câmeras de segurança eram sentinelas impassíveis, mas uma delas, perto de uma porta de serviço, falhava. Seu LED vermelho piscava num ritmo doente, criando um breve pulso de escuridão a cada dez segundos. Uma brecha. O tipo de falha que seu irmão a ensinara a enxergar. A fechadura era brutal, industrial. Elena tirou um estojo de couro do bolso. As ferramentas finas de metal pareceram delicadas demais para a tarefa. Seus dedos, ágeis por anos de prática, mapearam o interior do mecanismo. Clic. Clic. O silêncio ampliava cada som. Uma gota de suor escorreu por sua nuca. Finalmente, um estalo baixo, quase inaudível. A porta cedeu. Ela deslizou para dentro, fechando a porta sem um ruído. O ar era denso, carregado com o cheiro frio de metal, borracha e um odor químico que arranhava a garganta. O armazém era uma catedral do comércio, com pilhas de caixas formando cânions onde a luz das lâmpadas de emergência mal penetrava. Elena acionou uma pequena lanterna, o facho baixo varrendo o chão à sua frente. As anotações de Sasha diziam que a carga irregular ficara na doca interna, setor oeste. O ponto de partida. O chão de concreto estava limpo. Limpo demais. Movendo-se pelos corredores de carga, os sentidos aguçados, ela procurava uma anomalia, algo fora da ordem asséptica do lugar. Uma mancha. Um objeto esquecido. Chegou ao ralo de escoamento no centro do setor oeste e se agachou. O concreto ao redor da grade de ferro era mais escuro, o cheiro de alvejante quase dissipado, mas ainda presente. Passou um dedo enluvado pela superfície. Nada. O lugar estava estéril. Os Ferrante eram profissionais. Quando se levantou, pronta para admitir a derrota, o facho de sua lanterna capturou um brilho minúsculo, um ponto de luz preso na fenda da grade de metal. Seu coração parou e recomeçou com uma pancada violenta no peito. Ela se ajoelhou de novo, o som do joelho estalando no silêncio. Com a ponta de uma gazua, cutucou o objeto, puxando-o com cuidado da fresta. Ele caiu em sua palma com um peso insignificante. Estava coberto de uma película de sujeira oleosa. Elena o esfregou na perna da calça, o tecido áspero revelando o estanho opaco por baixo. Uma pequena medalha oval, pendurada num elo de corrente quebrado. Uma respiração aguda e dolorosa ficou presa em sua garganta. A figura de um homem barbado, com um cajado. São Nicolau. A medalha que sua avó dera ao irmão. Ele a usava sob a camisa, todos os dias. Reclamava que gelava no peito, mas nunca a tirava. *“Dá sorte, Elena”*, ele dizia com um sorriso torto. *“Afasta os tubarões.”* A medalha parecia queimar sua pele. Ele esteve ali. Naquele exato ponto. Seu irmão, que deveria estar no Armazém 7, do outro lado do porto, esteve aqui, na fortaleza dos Ferrante. Um som. A porta principal do armazém rangeu, abrindo-se a uns cinquenta metros. Uma fatia de luz amarela cortou a escuridão, projetando a silhueta de um homem corpulento. Elena se dissolveu na noite. Desligou a lanterna e rolou para o lado, espremendo-se no vão entre duas pilhas de caixas. Apertou a medalha na mão, a borda do metal cravando em sua carne. O homem era Bruno Salvi, o cão de guarda de Vittoria Ferrante. Ele não acendeu as luzes principais; seus passos pesados ecoavam com familiaridade pelo concreto, vindo direto para a doca oeste. Parou a poucos metros de onde ela se escondia. O cheiro rançoso de seu cigarro barato a alcançou. Ela prendeu a respiração, cada músculo travado. Um movimento, um espirro, e tudo acabaria. Salvi parou exatamente sobre o ralo. Olhou para o chão por um longo instante. Então, cuspiu. O som foi úmido, desdenhoso. — Ainda parece que fede a merda de rato por aqui — ele murmurou para si mesmo, a voz um rosnado. Ele chutou a grade do ralo com a ponta da bota. O ruído metálico fez Elena encolher-se. Em seguida, ele deu as costas e caminhou de volta, os passos lentos, deliberados. A porta se fechou com um estrondo final, mergulhando o armazém na quietude. Elena ficou imóvel, o único som era o sangue pulsando em seus ouvidos. Quando se moveu, seus membros estavam rígidos de frio e tensão. Do lado de fora, o ar salgado da noite nunca pareceu tão doce. De volta ao carro, sob a luz fraca do painel, ela abriu a mão. A medalha de estanho repousava ali. Não era uma lembrança. Era uma testemunha. A prova de que a história oficial, o acidente estúpido, a queda infeliz, era uma mentira fabricada com a mesma eficiência com que limpavam aquele chão. São Nicolau não o salvara. Apenas marcara o local exato onde seu irmão fora entregue aos tubarões.
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