A chuva não caía; ela pairava.
Era uma garoa fina, suspensa no ar como poeira de vidro, o bastante para transformar o néon das fachadas em feridas abertas sobre o asfalto. Vermelho, azul, violeta. As cores escorriam pelas poças, tremiam sob os pneus, grudavam na pele de Isabela como se a noite tivesse dedos.
Ela apertou a alça da bolsa contra o ombro e caminhou depressa, desviando de corpos bêbados, risadas altas, fumaça de cigarro e promessas vendidas em esquinas. O turno havia terminado tarde demais. Sempre terminava tarde demais. Os saltos já mordiam seus calcanhares, e o cheiro de gordura, gin barato e perfume doce parecia impregnado no cabelo preso às pressas na nuca.
Só faltavam três quadras até o ponto de táxi.
Três quadras, repetiu para si mesma, como se números fossem capazes de proteger alguém.
A rua principal vibrava atrás dela, viva e indecente, mas Isabela havia escolhido a travessa lateral para cortar caminho. Um erro pequeno, desses que uma mulher só percebe quando já não há tempo de voltar. A viela entre dois prédios era estreita, iluminada apenas pelo letreiro defeituoso de um bar fechado. A palavra OPEN piscava apesar das portas de metal abaixadas, lançando clarões intermitentes sobre sacos de lixo, paredes úmidas e um rastro de fumaça que escapava de algum bueiro.
Isabela diminuiu o passo.
Não sabia por quê.
Talvez fosse o silêncio errado. Não o silêncio comum das ruas tarde da noite, mas aquele que parece prender a respiração antes de algo cair.
Então ouviu uma voz masculina.
— Você devia ter aceitado quando ainda era uma oferta.
Ela parou.
O som vinha do fundo da viela, onde um portão de ferro separava a passagem de um estacionamento vazio. Havia três sombras. Duas em pé. Uma encostada na parede, com a cabeça baixa, como se o próprio corpo já tivesse desistido.
Isabela recuou um passo.
O salto tocou uma tampa de garrafa. O som foi mínimo, um estalo seco, mas dentro da viela pareceu uma explosão.
Uma das sombras virou o rosto.
Ela prendeu o ar.
Por um segundo, ninguém se mexeu.
O letreiro piscou.
No clarão vermelho, Isabela viu o homem encostado à parede erguer o rosto. Havia sangue em sua boca. Ele usava um paletó cinza encharcado pela garoa, uma camisa branca aberta no colarinho, os olhos arregalados de alguém que havia acabado de entender que arrependimento não servia para nada.
— Eu não contei — ele disse, com a voz quebrada. — Eu juro.
O homem à sua frente inclinou a cabeça. Isabela não conseguia ver seu rosto, apenas a linha escura dos ombros, a mão enluvada segurando uma arma.
— Esse é o problema — respondeu. — Você jurou demais.
O disparo veio abafado, quase íntimo.
Não foi como nos filmes. Não houve eco dramático, não houve corpo arremessado para trás em câmera lenta. Houve apenas um som curto, brutal, e o homem de paletó cinza escorregou pela parede, deixando uma listra escura nos tijolos. Os joelhos bateram no chão primeiro. Depois o resto dele.
Isabela levou a mão à boca.
Tarde demais.
O segundo homem virou-se de vez.
O letreiro piscou outra vez, e agora ela viu o rosto dele o bastante para saber que ele também a viu. Não detalhes. Não o suficiente para descrevê-lo a um retratista. Mas o suficiente para que a expressão dele mudasse. Um vazio calculado, frio.
— Ei.
A palavra atravessou a viela como uma lâmina.
Isabela correu.
O primeiro passo foi desajeitado; o segundo, puro instinto. A bolsa escorregou do ombro e bateu em seu quadril. O salto prendeu numa rachadura, torceu seu tornozelo com uma dor branca, mas ela não parou. O coração martelava tão alto que engolia a cidade.
Atrás dela, passos.
— Pega ela.
A ordem não foi gritada. Foi pior. Foi tranquila.
Isabela disparou para a rua principal, empurrando o próprio corpo para dentro do barulho, das luzes, da multidão que já não parecia viva, apenas um cenário indiferente. Esbarrou em um homem, derrubando a si mesma mais do que a ele. Mãos firmes a seguraram pelos braços antes que o asfalto a recebesse.
— Calma.
Era uma voz grave, sem pressa. Isabela ergueu o rosto.
O homem que a segurava era alto, vestia um sobretudo escuro, e olhava por cima do ombro dela com uma atenção que não combinava com um transeunte qualquer. Em um piscar, ele já havia avaliado a viela, os passos atrás dela e o medo molhando seus olhos.
— Comigo — ele disse.
Não era pedido.
Antes que Isabela conseguisse reagir, ele a conduziu para dentro de um carro preto encostado ao meio-fio, motor ligado, vidros fumê. A porta fechou-se com um som abafado, e o ruído da cidade desapareceu como se alguém tivesse cortado um fio.
— Quem é você? — ela perguntou, a voz ainda trêmula.
O homem ajustou os punhos da camisa antes de responder, sem pressa, como quem já estava acostumado a ser a última resposta de alguém.
— Enzo Moretti. — Os olhos dele encontraram os dela pelo retrovisor. — E você acabou de ver algo que ninguém deveria ter visto.