Sombras do PecadoCapítulo 2 de 6
Capítulo 2

Refúgio

A mansão de Enzo Moretti não dormia. Mesmo quando a madrugada se dissolveu em uma manhã pálida, mesmo quando o céu clareou atrás das nuvens pesadas e a chuva virou apenas um brilho úmido sobre as pedras do pátio, a casa continuou desperta. Havia câmeras como olhos negros sob os beirais. Homens de terno escuro junto aos portões. Vidros altos demais, muros altos demais, silêncio demais. Isabela acordou sem saber, por alguns segundos, em que vida estava. O quarto era amplo, impecável, quase impessoal. Lençóis de linho branco. Cortinas pesadas cor de chumbo. Um tapete espesso que engolia ruídos. Sobre uma cômoda antiga, uma jarra de água e um copo de cristal refletiam a luz cinza que escapava pelas frestas. Nada ali parecia escolhido para acolher; tudo parecia escolhido para resistir. Ela se sentou na cama de supetão. A dor no tornozelo voltou como uma mordida. As imagens da noite anterior vieram junto: o letreiro vermelho piscando, o homem de paletó cinza escorregando pela parede, o disparo abafado, os passos atrás dela. E depois Enzo, surgindo no caos como se a cidade tivesse aberto espaço para ele. O carro preto. A mão firme em seu braço. A voz baixa dizendo que, se ela quisesse viver até o amanhecer, entraria. Ela havia entrado. Agora, seu celular não estava no criado-mudo. Sua bolsa não estava na cadeira. Seus sapatos não estavam no chão. Tudo o que fazia dela alguém capaz de sair por uma porta e decidir o próprio destino havia desaparecido. Isabela levantou devagar, com o corpo inteiro protestando. A camisola que usava não era sua. Algodão caro, macio, discreto. Alguém havia deixado roupas dobradas sobre uma poltrona: calça preta, blusa de lã fina, meias. Peças sem etiqueta aparente, sem cheiro, sem vida anterior. Ela vestiu tudo com raiva. Ao tocar a maçaneta, hesitou. Não porque tivesse medo do que havia do outro lado — embora tivesse —, mas porque entendeu, com uma clareza que lhe revirou o estômago, que aquela porta podia abrir e ainda assim continuar sendo uma prisão. O corredor era comprido, revestido de madeira escura. Quadros antigos nas paredes. Luzes embutidas no teto. No fim, um homem parado de braços cruzados, expressão neutra, como parte da arquitetura. — Preciso falar com Enzo — Isabela disse. O homem não respondeu. Apenas inclinou a cabeça para indicar o caminho. Ela caminhou mancando, sentindo a casa observá-la por frestas invisíveis. Passaram por uma escadaria de mármore, por janelas altas com as cortinas fechadas, por uma sala onde o aroma de café fresco destoava da tensão enterrada em cada canto. A mansão era bonita de um jeito hostil; riqueza sem ostentação, luxo sem calor. Não havia flores. Não havia fotografias de família. Nada que denunciasse afeto. Enzo estava de pé diante de uma mesa comprida, vestindo camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços. Falava ao telefone em italiano, num tom baixo que não permitia interrupções. O cabelo escuro estava úmido, penteado para trás; o rosto, limpo de qualquer sinal de cansaço. Como se não tivesse atravessado a madrugada tirando uma mulher ensanguentada de uma rua onde alguém queria matá-la. Quando a viu, encerrou a ligação. — Você dormiu pouco. — Você roubou minhas coisas. Ele a observou por um segundo. Não pareceu ofendido. Pareceu avaliar o peso exato da palavra. — Guardei. — Meu celular. Minha bolsa. Meus documentos. — Estão seguros. Isabela soltou uma risada curta, sem humor. — Curioso. Eu também estou? Enzo apoiou as duas mãos na borda da mesa. Havia uma xícara de café intocada perto dele, preta como petróleo. — Está — ele disse, finalmente. — Por enquanto. A última palavra ficou suspensa entre eles, mais pesada do que toda a frase. Isabela cruzou os braços, tentando esconder o tremor nas mãos. — Por enquanto até quando? — Até eu entender quem mandou aqueles homens. E até eles entenderem que você está sob meu teto. — E se eu quiser ir embora? Enzo a observou por um longo segundo. Não havia ameaça no rosto dele. Havia algo pior: certeza. — Você pode tentar. — Ele empurrou a xícara para o lado, devagar, sem ter encostado nela uma vez. — Mas lá fora ninguém vai te receber com café. Isabela sustentou o olhar dele o quanto conseguiu. Depois baixou os olhos para as próprias mãos, e percebeu que já não tremiam tanto. Era esse o detalhe que mais a assustava.