O telefone tocou antes do amanhecer.
Não era o toque comum de um aparelho perdido em alguma mesa. Era seco, insistente, como uma unha batendo no osso. Isabela despertou com o corpo em sobressalto, a garganta presa, as mãos procurando no escuro uma bolsa que não estava ali, uma faca que nunca tivera, uma saída que talvez nunca fosse sua.
A mansão continuava mergulhada em penumbra. As cortinas pesadas filtravam a luz fraca da manhã, e o quarto cheirava a madeira encerada, linho limpo e medo antigo. Por um instante, ela não soube se o som vinha de dentro da cabeça ou das paredes.
Então ouviu passos no corredor.
Vozes baixas. Um comando abafado. O movimento contido de homens que haviam aprendido a transformar urgência em silêncio.
Isabela se levantou. O tornozelo ainda doía, mas a dor agora era quase útil; lembrava-a de que seu corpo continuava ali, inteiro o bastante para fugir se encontrasse uma brecha. Abriu a porta antes que alguém batesse.
O homem de terno escuro postado no corredor virou o rosto.
— O senhor Moretti pediu que a senhora descesse.
Senhora.
A palavra ficou entre os dois, falsa como uma joia comprada para esconder uma dívida.
Isabela não respondeu. Apenas seguiu.
No andar de baixo, a casa parecia menos fortaleza e mais animal ferido. Havia homens junto às janelas, outros atravessando a sala com fones discretos nos ouvidos, todos evitando olhar diretamente para ela. Sobre a mesa comprida da sala principal, papéis haviam sido espalhados em uma ordem que só Enzo parecia compreender. Fotografias, cópias de documentos, mapas da cidade riscados a caneta preta. Duas xícaras de café esfriavam intocadas.
Enzo estava de costas, diante da janela. A camisa branca impecável fazia o sangue seco na lateral de uma das mãos parecer ainda mais escuro. Não era muito, apenas um corte fino nos nós dos dedos, mas Isabela se prendeu àquele detalhe como se ele revelasse uma fissura em algo que ela julgara invulnerável.
Ele falava ao telefone.
— Não vai haver busca. — A voz dele era baixa, sem esforço, mas cada sílaba parecia empurrar o ar para longe. — Não na minha casa. Não hoje.
Pausa.
Isabela viu a mandíbula dele se contrair.
— Se insistirem, o vídeo da viatura parada a duas quadras do crime, na hora exata em que ninguém deveria estar ali, vai parar nas mãos erradas. Vocês entendem o que isso significa.
Pausa longa.
— Ótimo. — A voz dele baixou mais um tom. — Que continue assim.
Enzo desligou sem despedida e ficou um instante imóvel, os ombros tensos sob o linho branco. Quando se virou, encontrou Isabela parada na porta. Não pareceu surpreso. Talvez soubesse, desde que ela entrara, que estava sendo ouvido.
— Você escuta bem — ele disse.
— E você fala demais para alguém que se considera discreto.
Pela primeira vez, algo parecido com um sorriso atravessou o rosto dele. Durou menos que um piscar, mas Isabela registrou. E entendeu, com um aperto no peito, que aquele homem perigoso talvez fosse, por enquanto, a única coisa entre ela e a próxima viela escura.