A manhã entrou na mansão como uma lâmina.
Não houve sol. Apenas uma claridade branca, cruel, escorrendo pelas janelas blindadas e revelando marcas que a noite tentara esconder: um vaso quebrado junto à escada, respingos de lama no mármore, a sombra escura de sangue seco no batente de uma porta.
A casa de Enzo Moretti continuava de pé, mas já não parecia inviolável.
Isabela desceu devagar, com o tornozelo latejando e o estômago vazio demais para suportar a náusea. Cada homem no corredor desviava o olhar com a precisão de quem havia recebido uma ordem. Não era respeito. Era medo. E medo, ela aprendera, tinha muitas formas — algumas usavam armas; outras, ternos bem cortados.
Na sala principal, o ar cheirava a café queimado, couro e pólvora antiga.
Enzo estava diante da mesa comprida, o paletó escuro aberto, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. Havia um corte recente na maçã do rosto, fino como uma assinatura. Ele não parecia cansado. Parecia pior: concentrado.
Sobre a mesa, documentos, fotos, cópias de transferências bancárias. O rosto do homem de paletó cinza aparecia em uma das imagens, menos morto ali do que na memória dela. Ao lado, nomes riscados. Setas. Contas. Homens que ocupavam gabinetes, viaturas, restaurantes caros, igrejas aos domingos.
O mundo inteiro parecia ter deixado impressões digitais naquele assassinato.
— A polícia está no portão — disse Enzo, sem olhar para ela.
Isabela parou no meio da sala.
— Vieram me buscar?
— Vieram dizer que vieram buscar você.
A diferença caiu entre os dois com peso de chumbo.
Do lado de fora, um trovão distante rolou sobre a cidade. Ou talvez não fosse trovão. Talvez fossem portões sendo forçados, motores parados, botas no cascalho. A mansão, que antes engolia ruídos, agora parecia amplificá-los.
— Eles têm mandado?
Enzo soltou uma risada breve, sem humor.
— Têm o que precisam ter para bater no portão. Não para entrar.
Ele finalmente se virou.
A luz cinza da janela esculpia o rosto dele em ângulos duros, e havia, nos olhos, algo que Isabela nunca tinha visto ali: cálculo puro, sem o disfarce da elegância.
— Você vai descer comigo — disse. — Não vai falar. Não vai olhar para baixo. Vai parecer exatamente o que eu disser que você é.
— E o que eu sou, agora?
Enzo deu um passo na direção dela.
— Minha hóspede. Minha responsabilidade. — Uma pausa. — Meu problema.
Lá fora, as botas no cascalho ficaram mais próximas. Isabela respirou fundo, endireitou os ombros e, pela primeira vez desde a viela, entendeu que sobreviver àquela manhã ia exigir dela algo mais perigoso do que medo: cumplicidade.