O portão cedeu às nove e dezessete.
Não explodiu, não tombou como nos pesadelos que Isabela vinha ensaiando desde a noite da viela. Apenas gemeu. Um som longo, metálico, quase humano, atravessando a mansão de Enzo Moretti como se a casa finalmente sentisse dor.
Da sala principal, ela viu os faróis rasgarem a manhã branca. A chuva havia voltado, fina, obstinada, transformando o cascalho do pátio em uma pele suja. Homens avançaram entre os carros, armas erguidas, coletes escuros, rostos fechados atrás da autoridade de quem sabia que a lei podia ser uma máscara tão eficiente quanto qualquer capuz.
Enzo não se moveu.
Estava ao lado da mesa comprida, a mão esquerda apoiada no tampo, a direita solta junto ao corpo. O corte em sua maçã do rosto abrira de novo; uma linha de sangue descia devagar, elegante e indecente, até a mandíbula.
Isabela sentiu vontade de tocar aquele sangue.
Odiou-se por isso.
— Ainda dá tempo — ela disse.
A voz saiu mais baixa do que pretendia. Não por medo. O medo já tinha ultrapassado o ponto do grito. Agora era uma coisa fria, organizada, ocupando seus ossos com precisão.
Enzo olhou para ela.
— Para fugir?
— Para parar.
Algo quase parecido com tristeza atravessou o rosto dele. Não chegou a se fixar; foi varrido depressa, como tudo o que Enzo não se permitia sentir em voz alta.
— Não há mais como parar — ele disse. — Há apenas escolher quem para primeiro.
Isabela deu um passo na direção dele. O sangue na maçã do rosto dele brilhava sob a luz baixa, e ela ergueu a mão antes de pensar. Os dedos tocaram a pele quente, o corte úmido, a linha vermelha que descia até a mandíbula. Enzo não se moveu. Não respirou.
— Então escolha — ela sussurrou. — Mas escolha sabendo que eu não vou ficar atrás de você. Vou ficar ao lado.
Por um instante, o silêncio da mansão deixou de ser ameaça e virou abrigo.
Lá fora, o primeiro carro freou diante do portão.