[TESTE A/B v2 – GPT-5.5] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 3 de 5 · 40%

Um Estranho Interessado

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A sombra voltou à vitrine antes que Helena conseguisse fechar a gaveta. Dessa vez, bateu à porta. Duas batidas. Calmas demais para quem pedia licença, firmes demais para quem aceitava ir embora sem resposta. Helena empurrou os envelopes para o fundo, cobriu o livro verde com o pano de algodão e apagou a luminária. Tarde demais. O coração dela já tinha entendido antes da cabeça: alguém sabia. Quando abriu a porta, Miguel Vasconcelos estava na calçada, o caderno preso debaixo do braço. Não sorriu. Também não tentou parecer inocente. — Bom dia. Helena manteve o corpo no vão, bloqueando a entrada. — A livraria está fechada. — Eu vi a placa. — Então a conversa foi curta. Um canto da boca dele se mexeu, sem chegar a virar graça. — Posso falar daqui. Só vou parecer vendedor de enciclopédia. — Não compro enciclopédia. — Ninguém compra. É uma carreira sem futuro. Helena não riu. A mão dela apertou a maçaneta. — Você estava aqui ontem. Miguel olhou para o degrau antes de responder. — Estava. — Na vitrine. — Na calçada. — Para mim, não muda muita coisa. — Eu imaginei. O fato de ele não se defender irritou mais do que uma mentira. — Se veio escrever outra nota sobre Aurora Duarte, perdeu a viagem. O nome da avó caiu entre eles com um peso que fez Miguel baixar um pouco a voz. — Hoje eu não vim por ela. — Então veio por quê? Ele respirou fundo, como quem aceitava a própria culpa antes de falar. — Por causa do livro de capa verde. A chave escapou dos dedos de Helena e bateu no assoalho. O som foi pequeno. O estrago, não. Ela se abaixou, pegou a chave e a guardou no bolso do avental. — Você tem dez segundos. — Ou? — Ou eu fecho a porta na sua cara. — Justo. Ouvi uma conversa. Gente falando alto demais sobre tesouro, caixa separada e um livro que sua avó não queria vender. Vim até aqui ontem, vi você trabalhando e fui embora. — Depois de espiar. — Depois de escolher não bater. — Que bonito. — Nem tanto. Voltei hoje. Helena puxou a porta. Miguel não colocou o pé no vão. Não levantou a mão. Só falou mais rápido: — Eu sei pesquisar coisas antigas. Registros, jornais velhos, anúncios perdidos, fotos, arquivos. Sei fazer pergunta sem assustar a pessoa errada. E sei quando uma história está grande demais para ficar exposta no meio de uma cidade curiosa. A porta parou a um dedo do batente. — Você escuta fofoca e chama isso de pesquisa? — Chamo de começo ruim. Estou tentando melhorar. Helena encarou o rosto dele. Havia ambição ali, sim. Mas não só isso. Havia cuidado também, e isso era mais perigoso, porque confundia. Ela abriu a porta. — Entra. Sem tocar em nada. Miguel entrou e parou no tapete gasto. A campainha tilintou alto demais para aquela tensão. A Livraria Aurora pareceu menor com ele dentro. As estantes, as caixas abertas, o balcão lascado, a cadeira vazia atrás dele. Helena foi direto até a mesa dos fundos e ficou entre Miguel e o livro, como se o próprio corpo fosse uma tranca. Miguel passou os olhos pelo balcão, pela poeira fina, pela gaveta coberta pelo pano. Não avançou. — Ela guardava bala na gaveta da direita — disse. Helena apertou a borda da mesa. — Ainda guarda. — Vencida? — Provavelmente. — Combina com a cidade. Todo mundo guarda coisa vencida e chama de tradição. Dessa vez, quase saiu um riso. Helena matou antes de nascer. — O que você quer? — Uma parceria. A palavra soou limpa demais no meio do cheiro de papel velho. — Você me vigia, aparece falando de livro verde e quer parceria. — Quero ajudar a descobrir o que existe por trás disso. — Em troca de quê? Miguel demorou pouco. Pouco demais. — Exclusividade da história. Helena pegou a espátula sobre a mesa e a guardou no estojo. O clique do metal pareceu uma sentença. — Não. — Helena... — Não use meu nome como se tivesse direito a ele. Ele fechou a boca. — Você nem ouviu a proposta. — Ouvi o bastante. Jornalista. Exclusividade. História. A ordem não melhora se você embaralhar. Miguel apoiou o caderno no balcão, longe do livro, e tirou a mão logo em seguida, lembrando da regra. — Eu não estou falando de publicar amanhã uma manchete sobre a neta que encontrou sabe-se lá o quê. — Que generoso da sua parte não me transformar em espetáculo antes do almoço. — Estou falando de investigar direito. — Você está falando de pegar uma coisa da minha família e colocar seu nome embaixo. A frase acertou. Helena viu. O rosto dele não mudou muito, mas os dedos apertaram a capa do caderno. — É uma forma feia de dizer. — É uma forma curta. Lá fora, a manhã seguia como se nada tivesse acontecido. Passos na calçada. Uma bicicleta rangendo. A placa da livraria balançando devagar. Miguel passou a unha na quina do caderno. — Eu já escrevi coisa curta demais — disse. — Coisa que cabia numa coluna e, por isso, parecia verdade inteira. Não quero fazer isso aqui. Helena desviou o olhar para o livro coberto. — Isso deveria me comover? — Não. Deveria te servir. Você tem um livro adulterado, algo escondido por Aurora Duarte e uma cidade que transforma suspeita em certeza antes do café esfriar. Se fizer tudo sozinha, alguém vai perceber antes de você estar pronta. — Alguém como você. — Exatamente. Por isso entrei pela porta. Helena ficou em silêncio. Arrumou objetos que já estavam arrumados: pincel paralelo à lupa, envelope alinhado ao canto da mesa, pano puxado mais dois dedos sobre a gaveta. Miguel acompanhou o gesto, mas não comentou. — Eu não disse que havia cartas — ela falou. Miguel ergueu os olhos. — Não disse. — Então por que agiu como se soubesse? — Porque você acabou de confirmar. O ar ficou mais frio. Helena puxou o pano e cobriu também o livro. — Sai. Miguel assentiu. Apenas isso. Deu dois passos em direção à porta. A obediência dela bateu errado. — É só isso? Ele parou perto da estante infantil. — Você mandou eu sair. — E você sempre obedece? — Quando a pessoa tem razão. — Não finja virtude depois de truque barato. Miguel virou devagar. — Foi truque. Barato mesmo. E funcionou. Se eu consegui tirar isso de você em três minutos, alguém com menos cuidado tira em dois. Helena pegou uma caixa vazia do chão só para ocupar as mãos. — Não use a cidade como desculpa para sua vontade de publicar. — Eu tenho vontade de publicar. A honestidade seca cortou a resposta dela pela metade. Miguel respirou. — Vivo disso. Não vou fingir santidade. Mas uma boa história não é de quem grita primeiro. Às vezes é de quem espera tempo suficiente para não destruir ninguém. Helena olhou para ele por um segundo a mais do que queria. Depois abriu a gaveta, tirou um envelope e o colocou sobre a mesa, ainda fechado. — Sem tocar. Miguel voltou devagar. Ficou do outro lado, a uma distância segura. — O que você vê? — ela perguntou. Ele inclinou o corpo. — Papel antigo. Sem selo, sem carimbo. Não nasceu para circular. — Isso eu vejo. — A abertura foi feita com tesoura cega. Aqui. Ele apontou com o queixo. Helena abaixou os olhos. Havia um corte mínimo na aba, torto, quase escondido pela fibra. — Pode ter rasgado com o tempo. — Pode. Mas a dobra lateral está inteira. Quem abriu teve pressa. Ou pouca luz. Helena não respondeu. Pegou mais dois envelopes e colocou ao lado. Miguel não tocou em nenhum. — A mancha de umidade aparece sempre do mesmo lado — ele disse. Ela comparou. Era verdade. O mesmo escurecimento, a mesma lateral. — Ficaram juntos — murmurou. — Ou escondidos num lugar que molhava de um lado. Helena puxou o livro verde e abriu com cuidado sobre a almofada. A cavidade na lombada apareceu como uma ferida antiga. Miguel se aproximou só um pouco. — A cola aqui é mais clara perto da borda superior. Helena trouxe a luminária. A faixa estava ali. Fina. Recente demais para combinar com o resto. Ela conhecia remendo. Conhecia mão tentando apagar rastro. — Alguém abriu de novo — disse. — Ou colocou algo depois. A livraria rangeu com o vento. Helena contou os envelopes sem mover os lábios. Seis cartas. Uma lombada refeita. Um encontro na velha estação. Um perigo sem nome. Miguel não sorriu. Não pareceu vitorioso. Isso, de algum modo, pesou a favor dele. — Você disse registros — ela falou. — Jornais antigos, anúncios, fotos, obituários, compra e venda, qualquer pista sobre a estação. Coisa chata. Coisa que costuma guardar o que as pessoas tentam esconder. — E eu devo confiar em você porque reparou numa cola? — Não. Você deve me testar. Helena levantou o rosto. Miguel tirou uma caneta do bolso e a colocou no balcão. — Uma semana. Eu pesquiso sem citar seu nome, sem falar das cartas, sem entrar aqui sem convite. Você confere tudo. Se eu passar do limite, acaba. — Você fala como se limite fosse detalhe. — Para você, não é. Então para mim também não pode ser. Helena pegou a caneta. A tinta falhou no primeiro risco e depois veio escura. — Sua caneta falha. — Ajuda a não escrever bobagem rápido demais. — Não parece ter funcionado sempre. Miguel soltou um riso curto, baixo. — Não funcionou. Ela puxou uma folha limpa e escreveu no alto: regras. — Experimental — disse. — Experimental. — Uma semana. — Sete dias. — Não transforme isso em contrato elegante, Miguel. Ao ouvir o próprio nome, ele ficou quieto. Helena escreveu o número um. A ponta da caneta marcou o papel com força. Lá fora, a placa da Livraria Aurora balançou sem bater. Dentro, o livro verde continuava aberto entre os dois, como se esperasse para ver quem mentiria primeiro. Helena empurrou a folha na direção dele, mantendo os dedos sobre a borda. — Você não publica nada sem minha permissão.
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