[TESTE A/B v2 – GPT-5.5] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 4 de 5 · 60%

Rafael para Lídia

8 min de leitura
A caneta de Miguel falhou bem no meio da palavra regra. Helena tomou a folha antes que ele tentasse corrigir o borrão e escreveu por cima, com tanta força que a ponta marcou a madeira do balcão. — Segunda regra: nada sai daqui. Miguel inclinou a cabeça, mantendo as mãos longe das cartas. — Isso não era a primeira regra? — A primeira era não publicar. Essa é não falar. — Nem comentário irônico? — Principalmente comentário irônico. Ele respirou como quem enterrava uma frase pronta. — Vai ser um dia difícil para mim. — Uma tragédia discreta para a literatura. A placa do lado de fora rangeu com o vento. Dentro da Livraria Aurora, a luz amarela da luminária caía sobre o livro verde, os envelopes antigos e o espaço estreito entre os dois. Helena abriu o estojo de restauração. Não ofereceu as luvas a Miguel. Apenas deixou o par sobre a mesa. Ele olhou para as luvas. Depois para ela. Esperou. A demora contou a favor dele. Helena empurrou o par com a ponta da espátula. — Se for chegar mais perto, usa. Miguel calçou as luvas sem sorrir demais. — Entendido. — Melhor. — Eu ia dizer “sim, senhora”, mas estou aprendendo. Helena não quis rir. O canto da boca traiu só um pouco, e ela abaixou o rosto antes que ele visse demais. Sobre o balcão havia seis envelopes. Dois já tinham sido lidos. Quatro continuavam fechados, frágeis, amarelados, como se o tempo tivesse respirado em cima deles por décadas. — Eu não devia abrir todos hoje — ela disse. — Por conservação? — Por juízo. — Esse costuma perder para a curiosidade. Helena apontou a espátula para ele. — Comentário irônico. — Foi técnico. — Foi quase. Ela pegou o terceiro envelope. A aba cedeu com um estalo baixo, seco. Miguel puxou uma cadeira, mas não a arrastou; levantou pelos pés e colocou no chão com cuidado. Aquele gesto pequeno irritou Helena um pouco. Era mais fácil desconfiar dele quando ele fazia barulho. O papel veio dobrado em três partes. Havia uma mancha redonda no canto, talvez chuva, talvez lágrima, talvez apenas o capricho cruel da umidade. Helena o abriu sobre o mata-borrão e prendeu as pontas com pesos de vidro. — Posso ler? — Miguel perguntou. — Ler. Não tocar. — A religião da casa continua rígida. Helena começou pela primeira linha. — “Hoje você riu quando o giz quebrou no meio da palavra liberdade.” Ela parou. A palavra parecia ter acabado de cair no balcão, coberta de pó branco. Miguel não comentou. Só abriu o caderno e apoiou a caneta na página. Helena continuou, mais baixo: — “Fiquei com vontade de guardar o pedaço no bolso. Não pelo giz. Pelo modo como você fingiu bronca com a turma e depois me mostrou a ponta branca na palma da mão, como quem entrega prova de crime.” O relógio perto do caixa tiquetaqueava no horário errado. Aurora Duarte nunca acertava aquele relógio. Agora ele insistia em marcar uma tarde que já não existia. Helena engoliu em seco e desceu os olhos. — “Minha querida professora, você me pediu para não escrever assim. Disse que certos nomes viram alvo quando passam para o papel. Eu tentei obedecer. Mas há dias em que o mundo me chama de rapaz sem futuro, e só a lembrança da sua letra no quadro me devolve algum tamanho.” Miguel levantou a caneta, mas não escreveu. — Professora — ele disse. — A primeira pista clara. — Clara até demais. Helena pegou uma folha limpa e anotou: professora. A letra saiu torta. — Ele era mais novo — Miguel falou. — Ou se sentia pequeno perto dela. — Você fala como restauradora ou como alguém que leu a frase duas vezes? Ela virou a anotação para baixo. — Falo como alguém que não te deu licença para me analisar. — Justo. Miguel recuou meio passo. Sem protesto. Sem charme. Aquilo abriu um espaço novo entre eles, menor que confiança, maior que tolerância. Helena voltou à carta. As últimas linhas estavam mais inclinadas, como se a mão tivesse corrido antes da coragem acabar. — “Se eu pudesse, deixaria todas as cartas dentro do livro que você carrega contra o peito, aquele de capa verde, para que ficassem onde minha mão não pode ficar. Se for perigoso demais, queime. Se não for, guarde. Um dia talvez alguém precise saber que eu não inventei você.” O silêncio veio inteiro. O livro verde, aberto sobre a almofada, deixou de parecer um objeto. Parecia cúmplice. Miguel apontou, sem encostar. — O livro era dela. Helena abriu a capa com mais cuidado do que antes. Até aquele momento, ela procurara cola mexida, lombada violada, cavidades. Agora procurou uso: cantos gastos, pequenas manchas, riscos de unha no papel antigo. Perto da dobra interna, quase apagadas, havia duas letras a lápis. L.A. Ela pegou a lupa. — L. A. Miguel ficou imóvel por um segundo. — Lídia Alves. O nome saiu rápido demais. Helena ergueu a lupa. — Você já sabia? — Não. Não assim. — Ele passou a mão pelo cabelo, lembrando tarde das luvas, e parou no meio do gesto. — Eu sabia o que todo mundo daqui sabe sem querer saber. A professora que sumiu. — Sumiu ou foi embora? — Depende de quem conta. Quando querem limpar a história, dizem que foi embora. Helena deixou a carta aberta. — E você não achou importante mencionar isso antes? — Ontem eu tinha boato. Você tinha cartas sem nome. Se eu jogasse “Lídia Alves” no balcão, ia parecer que eu queria forçar uma história. — E não queria? Ele sustentou o olhar dela. — Queria. Só que estou tentando aprender a não arrombar a porta. A resposta não era bonita. Era melhor que isso: parecia verdadeira. Helena empurrou o celular dele sobre a mesa. — Pesquisa. Aqui. Na minha frente. — Pelas suas regras? — Pela sua sobrevivência. Dessa vez ele sorriu de leve. — Justo também. Miguel abriu os arquivos digitalizados de jornais antigos. A tela carregou aos pedaços, com falhas cinzentas e letras quebradas. A internet da livraria parecia caminhar de bengala. — Lídia Alves. Professora — ele murmurou, digitando. Vieram anúncios de aula, uma nota sobre doação de livros, uma lista de nomes em evento escolar. Helena abriu outro envelope enquanto ele filtrava datas. Dentro, havia uma folha menor presa no canto, tão fina que quase passou despercebida. A assinatura apareceu antes do texto. “Seu, para sempre, R.” O R atravessava a página com uma curva forte, impaciente. — Miguel. Ele levantou o rosto na hora. Helena virou a folha para ele, sem entregar. — R. Miguel soltou o ar devagar. — Rafael Monteiro. Helena estreitou os olhos. — De novo rápido demais. — Porque também existe uma história sobre ele. Um rapaz que desapareceu na mesma época. A cidade fala dele com pena. Dela, com veneno. Helena ficou com a pequena folha presa sob os pesos de vidro. Leu o bilhete inteiro. — “Minha querida professora, se você aceitar me encontrar na velha estação, leve o livro verde. Não pelas cartas. Por você. Se alguém perguntar, diga que vai devolver um empréstimo. Seu, para sempre, R.” Ela anotou embaixo de professora: R. Depois: velha estação. livro verde. Miguel digitou Rafael Monteiro. A busca demorou. Lá fora, passos passaram pela calçada e sumiram. Dentro, a poeira girava na luz. — Aqui — ele disse. Helena contornou o balcão e parou ao lado dele. Perto o bastante para sentir cheiro de café frio no casaco de Miguel. Ele afastou a cadeira um pouco, abrindo espaço sem fazer disso um favor. Na tela, uma manchete pequena dizia: “Rapaz local não retorna para casa após noite de chuva.” Helena leu o trecho em voz alta: — “Conhecido por ajudar em entregas e pequenos serviços, Rafael Monteiro foi visto pela última vez nas proximidades da estação desativada...” A frase terminava num borrão escuro. — A data — Miguel disse — é três dias depois do bilhete. — Três dias. Helena voltou às cartas, tocando apenas as margens. A beleza daquelas palavras ficou mais pesada. Não era só amor escondido. Era alguém tentando deixar prova antes que o apagassem. Miguel mudou a busca. — Agora Lídia. A primeira nota era curta: “Professora falta às aulas pelo segundo dia.” A segunda vinha maior. “Professora desaparecida teria deixado a cidade por vontade própria.” Helena leu três vezes. — “Teria.” — Jornal adora esse verbo quando quer lavar as mãos — Miguel disse. Ela olhou para ele. — Você usa? A pergunta ficou entre os dois. Miguel baixou os olhos para o caderno. — Já usei. Helena não o perdoou. Mas também não se afastou. — Continua. Ele rolou a página. — “Lídia Alves, professora estimada por parte dos alunos...” — Miguel parou, a boca dura. — Por parte. — Lê. — “...não foi vista desde a noite em que fortes chuvas atingiram a região. Fontes próximas afirmam que a jovem demonstrava comportamento inadequado para sua posição e mantinha amizade excessiva com um rapaz local, também ausente desde a mesma semana.” Helena fechou a tampa de um tinteiro antigo que já estava fechado. O clique saiu seco. — Amizade excessiva. Miguel pegou a caneta. — Isso não é notícia. É sentença sem juiz. — Escreve. — O quê? — Isso. No seu caderno. Não no jornal. Ainda não. Ele escreveu. A caneta falhou em “sentença”. Miguel rabiscou por cima até a palavra aparecer inteira. Helena colocou a carta do giz ao lado da reportagem. De um lado, alguém guardava uma risada. Do outro, alguém enterrava uma mulher viva em frases educadas. — Ela guardou as cartas — Helena disse. — No livro dela. — Ou alguém guardou por ela depois. Miguel ergueu os olhos. — Aurora Duarte? O nome da avó pousou sobre o balcão com cuidado e peso. Helena alinhou os envelopes um a um. — Minha avó sabia onde estavam. — E não vendeu o livro. — E me mandou achar. Miguel fechou o caderno, deixando o dedo entre as páginas. — Então a pergunta não é só quem eles eram. — É quem mentiu primeiro. O celular vibrou com o carregamento de outra página. Miguel olhou. A expressão dele mudou antes que dissesse qualquer coisa. — Tem uma coluna de opinião da época. — Opinião de quem? Ele demorou um segundo a virar a tela. Quando virou, segurava o aparelho como quem entrega algo sujo. No meio do texto moralista, uma frase sobrevivia quase inteira: “Uma fonte respeitável, o jovem advogado Augusto Brandão, afirma que Lídia Alves era leviana e capaz de arrastar um bom rapaz para a vergonha.” Helena não tocou no celular. O relógio errado da Livraria Aurora deu uma batida única, fora de hora. Na tela, o nome Augusto Brandão parecia escrito com tinta fresca.
Comentar este capítulo
Comentários de "Rafael para Lídia" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬