[TESTE A/B – GPT-5.5] As Cartas que Nunca Foram Enviadas
Cap. 2 de 9 · 11%

Tinta e Poeira

10 min de leitura
A goteira dos fundos marcava o tempo melhor que qualquer relógio. Pingava dentro de um balde de tinta velha, sempre com o mesmo atraso entre uma gota e outra, como se a Livraria Aurora respirasse mal desde a morte da dona. Helena Duarte acordou no sofá estreito do escritório com o pescoço duro, o casaco preto servindo de coberta e um gosto de poeira na boca. A mala continuava fechada ao lado da mesa. No balcão, a folha arrancada do caderno ainda esperava por ela. Vender. Rápido. A tinta tinha borrado no canto da palavra. Helena passou a ponta do dedo sobre o azul úmido e o acento desapareceu numa mancha. — Ótimo — murmurou. — Até a caneta discorda. Lá fora, um caminhão sacudiu os paralelepípedos. As estantes vibraram. Em algum corredor, um livro caiu com um baque seco. Helena fechou os olhos por um segundo. Queria ignorar. Queria tomar um banho, ligar para um corretor, achar uma forma prática de transformar aquela herança em distância. Outro pingo caiu no balde. Ela se levantou. No corredor entre as estantes, o livro estava aberto de bruços no chão, como um bicho ferido. A capa verde descolava nas pontas, a lombada tinha se partido e uma tira de papel amarelado escapava entre as páginas. Helena se abaixou e leu a anotação escrita na letra firme de Aurora Duarte. Miguel Vasconcelos — guardar. O nome, visto no caderno na noite anterior, voltou com a insistência de uma porta mal fechada. Helena segurou o livro com cuidado demais para alguém que pretendia vender tudo. — Quem é você, Miguel Vasconcelos? — perguntou à lombada partida. A livraria respondeu com madeira rangendo. Ela levou o volume até a mesa de restauração nos fundos. A mesa ficava sob uma janela estreita, marcada por cortes antigos, manchas de cola e pequenos acidentes de anos. Aurora vendia livros, defendia livros, brigava por livros. Mas restaurar sempre tinha sido coisa de Helena. Quando menina, ela não se encantava só com as histórias. Gostava do avesso delas. Linha. Fibra. Costura. Cola. O ponto exato em que uma página começava a se soltar. Abriu a gaveta. Pincel macio. Espátula. Papel japonês. Pesos de metal embrulhados em tecido. Tudo guardado de qualquer jeito, como Aurora fazia quando fingia que sabia organizar. Helena pegou o avental pendurado na cadeira. O tecido cheirava a lavanda velha e mofo. Ao enfiar a mão no bolso, encontrou dois clipes enferrujados e uma bala derretida no papel. — Você era uma ameaça à conservação de acervos, vó. O sorriso veio pequeno. Foi embora rápido demais. Antes de tocar no livro, abriu uma página limpa do caderno de Aurora e escreveu uma lista curta. Telhado. Inventário. Documentos. Miguel Vasconcelos. A caneta parou no sobrenome. Helena riscou o nome uma vez. Depois tentou cobrir o risco com outro, como se pudesse apagar a própria curiosidade. Não conseguiu. Arrancou a folha, amassou e jogou na lixeira. A bola de papel bateu na borda e caiu no chão. Ela não pegou. Voltou ao livro. A capa verde estava úmida na parte inferior. Um conserto apressado destruiria o volume. Um conserto bem-feito levaria horas. Talvez dias, se ela fizesse como sabia. Na vitrine, a placa dizia VOLTO JÁ. No balcão, a palavra vender parecia observá-la. Helena colocou um peso sobre as primeiras páginas e abriu a guarda da capa com a espátula. A camada interna se soltou fácil demais. Não era só cola vencida. Havia um corte fino, quase invisível, rente à lombada. Alguém tinha aberto aquele espaço antes. E fechado de novo. A mão dela parou no ar. A goteira também pareceu parar. Quando a guarda se ergueu, apareceu uma dobra de papel mais escura, encaixada entre o papelão da capa e o tecido. Helena afastou a espátula, prendeu a respiração e puxou com os dedos. O pacote era pequeno, amarrado com linha bege. Não parecia esquecido. Parecia escondido. Ela apoiou o pacote sobre a mesa. A linha se desfez ao primeiro toque, soltando cheiro de armário fechado. Dentro havia cinco envelopes. Sem selo. Sem carimbo. Sem destinatário por fora. Só papel grosso, amarelado, com manchas cor de chá nas bordas. Helena empurrou os envelopes para longe. — Não. A palavra saiu baixa, quase sem força. Depois ela puxou o primeiro de volta. A cola antiga resistiu por costume. Helena usou a espátula fina, abriu uma fresta mínima e soltou a aba sem rasgar. O papel de dentro estava dobrado em quatro. A tinta azul-escura atravessava alguns pontos, como se quem escreveu tivesse apertado a pena com raiva ou medo. Ela leu a primeira linha. Minha querida, Fechou a carta na mesma hora. O relógio de parede, parado havia sabe-se lá quanto tempo, marcava três e vinte. Sem pilha, sem função, ainda ocupava espaço acima da estante de romances. Helena ficou olhando para os ponteiros mortos até a chuva engrossar na janela. — Isso não é meu. Mas a carta estava ali. Aberta o suficiente para chamá-la de mentirosa. Ela tentou devolver tudo ao esconderijo. O pacote não coube. A dobra prendeu na cola antiga e amassou. — Droga. Helena tirou de novo, alisou o papel com cuidado e colocou uma folha de proteção por baixo. Leu. Minha querida, Se esta carta chegar às suas mãos por caminhos tortos, culpe a cidade, não a mim. Aqui, até parede aprende a repetir conversa. Hoje passei pela praça sem levantar a cabeça, e ainda assim três pessoas souberam antes de mim onde eu tinha estado. Não escrevo para pedir paciência. Você já me deu mais do que eu merecia. Escrevo porque, quando você sorriu atrás da cortina da livraria, eu entendi que há coisas que só existem enquanto alguém tem coragem de guardar. Helena parou na palavra livraria. O vidro da janela tremeu com um trovão distante. A água escorreu pela parede, seguindo o caminho antigo até o balde. O cheiro de papel molhado subiu, doce e triste. Ela continuou. Guardei o seu lenço no bolso do casaco. Ainda tem o cheiro do sabonete que você finge não usar. Se amanhã eu não puder te entregar em mãos, esconda isso onde só quem ama livros teria paciência de procurar. Helena levou a mão ao bolso do avental e encontrou os clipes frios. Tirou os dois e os alinhou na mesa, sem perceber. A letra não era de Aurora. Também não era recente. Aquele papel tinha atravessado anos dentro de um livro que Aurora separara para Miguel Vasconcelos. O celular vibrou no balcão. Mensagens da capital. Duas ligações perdidas. Um lembrete automático sobre o aluguel da oficina. Helena abriu os contatos, digitou as primeiras letras de corretor, parou e apagou. A folha com Vender rápido continuava no balcão. Ela virou o celular com a tela para baixo. No Café da Praça, Miguel Vasconcelos escolheu a mesa perto da janela e longe do balcão. Parede nas costas, rua à frente, saída no canto do olhar. Velho hábito. Ou velha defesa. O café diante dele esfriava. Ao lado da xícara, um caderno preto aberto mostrava três linhas riscadas e uma quarta furada pela ponta da caneta. Voltar a São Bento das Águas não apaga nada. Miguel riscou a frase. — Belo começo — disse para si. Um atendente parou ao lado da mesa, pano no ombro. — Mais café? — Esse ainda está negociando comigo. — Frio assim, ele já ganhou. Miguel empurrou a xícara dois dedos. — Então me traz outro. Sem açúcar. E, se souber, a Livraria Aurora abriu hoje? O homem olhou pela janela, na direção da fachada do outro lado da praça. — Depois do enterro? Duvido. — A placa dizia que voltava já. — Aquela placa dizia isso até quando a dona estava almoçando no fundo. Não servia pra muita coisa. Miguel fechou o caderno. — Servia pra dar esperança errada. O atendente soltou uma risada curta e se afastou. Miguel tirou do bolso um papel dobrado. A anotação tinha sido copiada de uma mensagem antiga. Aurora Duarte — livro reservado. Retirar pessoalmente. Nada de entrega. Pessoalmente. Ele passou o polegar pela dobra até marcar a pele. Na mesa atrás dele, duas senhoras dividiam um pão de queijo e falavam baixo demais para conversa pública, alto demais para segredo. — A neta dormiu lá, você viu? — Vi luz acesa até tarde. — A menina quer vender. Gente de fora fica assim. Chega com pressa, vai embora sem saber onde pisa. — De fora nada. Foi criada ali. — Onze anos mudam até raiz de árvore. Miguel não se virou. O atendente colocou o café novo na mesa, mas ele nem tocou na xícara. Uma das senhoras cortou o pão de queijo com a faca. — Aurora Duarte falava de um tesouro naquela livraria. — Tesouro? — Foi o que ela disse na última semana. Se minha neta mexer nos livros certos, encontra o que São Bento das Águas enterrou. — Você aumenta. — Eu diminuo. Por respeito. A outra baixou mais a voz. — E se ela encontrou? A colher de Miguel bateu no pires. As duas se calaram. Ele pegou um sachê de açúcar, rasgou sem usar e deixou os grãos intactos ao lado da xícara. — Desculpa — disse, sem virar. — Mão ruim. — Jornalista tem mão de curioso — respondeu uma delas. Miguel virou só o suficiente para mostrar um sorriso pequeno. — A senhora fala como quem já expulsou alguns. — Só os mal-educados. — Então ainda tenho chance. A mulher avaliou o caderno, a barba por fazer, o casaco úmido. — Você é de fora? — Hoje, sim. — Isso é resposta de quem esconde o resto. — É resposta de quem pagou só pelo café. A outra senhora soltou um riso pelo nariz, mas a primeira não sorriu. — Se vai à livraria, não pisa forte. A menina enterrou a avó ontem. Miguel guardou o papel no bolso. O clique da caneta pareceu alto demais. — Eu sei. A frase saiu antes do cuidado. Ele deixou dinheiro sob o pires e saiu sem beber o segundo café. A chuva tinha dado uma trégua. As árvores da praça ainda pingavam, cada folha atrasada em sua própria tempestade. Miguel atravessou a rua sem abrir o guarda-chuva. No bolso interno da jaqueta, o papel com o nome de Aurora raspava contra o caderno preto a cada passo. Na Livraria Aurora, Helena já tinha lido a primeira carta duas vezes. Na terceira, pulou para as partes que pareciam arranhões. A cidade não perdoa quem ama fora da fila. Se me virem perto da sua janela outra vez, vão dizer que vim comprar livros. Deixe que digam. Livros ainda são a melhor desculpa para entrar onde não se deve. Helena levantou e foi até a vitrine. A rua parecia a mesma da véspera: calçada torta, fachadas molhadas, gente andando depressa para não se comprometer com a chuva. Do outro lado, um homem atravessava a praça em direção à livraria. Jaqueta escura. Caderno debaixo do braço. Passo de quem já tinha decidido chegar. Helena recuou antes que ele alcançasse a calçada. Pegou a placa VOLTO JÁ, virou para FECHADO — escrito à mão por Aurora no verso — e encaixou de novo. O sino da porta balançou sem tocar. Duas batidas leves vieram na madeira. Helena ficou atrás da estante mais próxima, a carta aberta sobre a mesa dos fundos. Outra batida. Mais curta. — Helena Duarte? — chamou uma voz masculina. — Sou Miguel Vasconcelos. Sua avó deixou um livro pra mim. O nome ocupou a livraria inteira. Helena apertou a carta contra o avental. A tinta antiga marcou de leve o tecido claro. — A livraria está fechada. Houve um silêncio do outro lado. Não foi ofendido. Foi atento. — Eu vi a placa — ele disse. — Então sabe ler. Dessa vez, o silêncio pareceu quase um sorriso. — Sei. Também sei esperar. Helena odiou perceber que a voz dele não empurrava a porta. Não exigia. Só ficava ali, como uma pergunta bem colocada. — Volte depois. — Eu volto. Os passos se afastaram. Um. Dois. Três. Depois pararam por tempo demais. Helena esperou até a sombra desaparecer da fresta. Só então voltou à mesa. O pacote de envelopes parecia maior agora. Ela ajeitou a primeira carta sob um peso de metal e abriu a última dobra, aquela que ainda não tinha lido. A tinta ali era mais forte, apressada. Amanhã, quando o relógio bater meia-noite, vá sem o lenço e sem medo. Se alguém perguntar, diga que esqueceu um livro comigo. Não conte a ninguém, nem mesmo a quem sorri para nós na praça. Porque o perigo que nos ronda já tem olhos demais. Helena virou a página com a ponta dos dedos. No rodapé, espremida entre a dobra e a borda rasgada, havia mais uma linha. Velha estação. Meia-noite. Venha sozinha.
Comentar este capítulo
Comentários de "Tinta e Poeira" · 0
Seja a primeira a comentar este capítulo 💬