A ponta do pincel — um único fio de pêlo de marta — era a única coisa que existia no universo. Pairava sobre o rosto rachado de uma madona do século dezessete, prestes a depositar um grão de pigmento na fissura. Um ato de fé. Aqui, em seu ateliê em Milão, um sótão banhado por uma luz fria e precisa, Giulia Alagna não era filha, nem irmã, nem herdeira de nada. Era uma restauradora. Alguém que consertava o que o tempo quebrava.
Seu mundo era feito de terebintina, óleo de linhaça e a poeira de séculos. Sua respiração, um metrônomo invisível ditando o ritmo lento com que curava a lágrima pintada no rosto da virgem. A mil quilômetros de distância, Palermo era uma ferida infeccionada que ela decidira ignorar. Uma palavra que não pronunciava, um caos que não ousava tocar. Cada pincelada em Milão era um tijolo a mais no muro que construíra entre sua vida e sua origem.
Uma cicatriz mais funda na tela, perto do pescoço da santa, exigiu uma ferramenta diferente. O bisturi de restauro brilhou, refletindo seu rosto concentrado. A violência contida naquela única fenda rasgou um buraco em sua paz, e uma imagem indesejada invadiu o ateliê.
Uma sala escura, cheia de fumaça de charuto e homens de terno preto. Ela, com dezesseis anos, invisível numa poltrona, enquanto seu pai, Cosimo Alagna, proferia sentenças com a calma de um deus indiferente. E, de pé atrás da cadeira dele, a sombra. Salvo Ingrassia.
Ele nunca falava. Não precisava. Seus olhos, da cor de granito molhado, pareciam pesar quilos. Suas mãos, pousadas no encosto do assento de couro, pareciam capazes de esmagar o que tocassem. Naquela noite, o olhar dele cruzou com o dela por um único, longo segundo. Não havia curiosidade. Nem ameaça. Ele não a *viu*. Ele a *registrou*. Como um sentinela anota uma falha na muralha, um ponto de vulnerabilidade a ser explorado ou selado. Naquele momento, ela não viu um homem. Viu uma arma com a trava de segurança no lugar. A arma favorita de seu pai.
Giulia piscou, a imagem se desfazendo. A lâmina do bisturi tremeu em sua mão. Uma imperfeição. Inaceitável. Ela o pousou na bancada com um ruído seco de metal contra madeira, um grito no silêncio. Um arrepio percorreu sua espinha, o ar do ateliê de repente rarefeito, contaminado.
Foi quando o telefone tocou.
O som foi uma facada na quietude. Uma invasão. Seus clientes sabiam as regras. Seus amigos, os poucos que tinha, também. O visor aceso na mesa ao lado revelou o nome que fez o ar em seus pulmões virar pedra.
*Zia Rosalia.*
Dez anos. Dez anos de telefonemas curtos, coreografados, em Natais e aniversários. Rosalia, a irmã de seu pai. A diplomata da família. A guardiã dos segredos mais sombrios.
Giulia atendeu, mas não disse nada. Deixou o silêncio viajar os mil quilômetros até Palermo.
— Giulia? — A voz da tia estava gasta, um tecido velho a ponto de rasgar.
— Tia. — A palavra saiu feito um caco de vidro.
Um suspiro do outro lado. Um som distante de mar. A casa de Palermo ficava de frente para o mar. — Preciso que você ouça com calma.
Giulia se amparou na mesa de trabalho, os nós dos dedos brancos. A calma de sua tia era o prenúncio dos piores furacões.
— Aconteceu alguma coisa com o Mimmo? — A pergunta sobre o irmão mais novo foi a única coisa que conseguiu escapar. A única peça daquele mundo que ela ainda considerava sua.
— Não, não. Mimmo está bem. Ele está… aqui. — A pausa foi longa demais. — O problema, Giulia… — A voz dela falhou. — É o seu pai.
Giulia olhou para a sua madona. Dor eterna e silenciosa. Jamais vira seu pai demonstrar algo que não fosse controle ou fúria.
— O que ele fez desta vez? — A pergunta saiu fria, exausta.
Outro silêncio. Denso. Funeral. — Cosimo… — Rosalia pronunciou o nome como se fosse uma relíquia perigosa. — Ele se foi, Giulia.
O mundo não parou. Um carro buzinou na rua. Dentro do ateliê, o único som era o zumbido baixo de um desumidificador. *Ele se foi.* Um eufemismo ridículo para um homem como Cosimo Alagna. Homens como ele não "se iam". Eram arrancados. Derrubados. Apagados.
— Como? — sua própria voz soou estranha aos seus ouvidos.
— O coração. O médico disse que foi rápido. Ontem à noite, no escritório.
Uma risada seca, sem humor, arranhou a garganta de Giulia. O coração. A única parte de Cosimo Alagna que todos duvidavam que existisse.
— O enterro… a missa será depois de amanhã. Na catedral. — A voz de Rosalia agora era mais firme, a organizadora assumindo o controle. — Você precisa vir. Pelo seu irmão. Pelo nome da família.
O nome. Sempre o nome. A herança de mármore e sangue que ela recusara.
Giulia fechou os olhos. Viu seu ateliê, a ordem, a paz que sangrara para construir. E viu o que a esperava lá: os ternos pretos, os olhares de lado, o cheiro de lírios misturado com o de pólvora antiga. E ele. A sombra de seu pai, agora sem dono. Salvo Ingrassia. O que acontece com uma arma quando a mão que a segura desaparece?
— Giulia? Você está aí?
Ela abriu os olhos. Sua mão livre estava fechada num punho tão apertado que as unhas curtas cravavam a palma.
— Estou a caminho — disse, e desligou antes que a tia pudesse dizer mais nada, antes que ela mesma pudesse mudar de ideia.
Horas depois, na poltrona apertada de um avião, ela observou as luzes de Milão se tornarem um borrão dourado e depois sumirem na escuridão. Abaixo, o negrume absoluto do mar Tirreno subia para encontrá-la. Seu ateliê, sua paz, tudo ficara para trás.
Ela já não era a restauradora de Milão. Era, de novo, uma Alagna. E estava voltando para enterrar o rei.