Última Missa em Palermo
Cap. 2 de 13 · 8%

A Casa do Silêncio

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O homem que a esperava no desembarque segurava uma placa com o sobrenome ‘Alagna’ como se fosse um mandado de intimação. Era um muro de terno preto e ombros largos, com um silêncio que parecia uma decisão, não um acaso. Durante todo o trajeto, nenhuma palavra. Apenas o calor de Palermo se derramando para dentro do carro, um ataque aos sentidos ordenados que Giulia cultivara em Milão. A explosão de buganvílias sobre muros de pedra, a cacofonia das buzinas — tudo parecia gritar um bem-vindo de volta que ela nunca desejou. A Villa Alagna não era uma casa, era uma fortaleza que se disfarçava de lar. O portão de ferro forjado se abriu para eles sem um ruído, movido por uma força invisível e obediente. Uma câmera escura, um olho mecânico, girou para seguir o carro enquanto este subia pelo caminho de cascalho. O som dos pneus triturando as pedras era a única profanação naquele silêncio sepulcral. Giulia saltou do carro antes que o motorista pudesse abrir sua porta, faminta por ar, mas o que encontrou foi uma atmosfera densa, pesada com o cheiro de sal do mar e o perfume enjoativo de lírios. Brancos, fúnebres. O cheiro de uma capela. A porta principal se abriu antes que ela a tocasse. Rosalia estava parada no umbral, uma silhueta escura contra a penumbra da casa. O luto a havia afiado, não quebrado. Estava mais magra, o vestido preto austero, o coque apertado como um nó de forca. Mas os olhos eram os mesmos: atentos, controladores. Nenhuma lágrima. Chorar era uma fraqueza que os Alagna não se permitiam em público. — Giulia. — Tia. — A palavra saiu sem vida, um eco no mármore frio do saguão. Rosalia deu um passo para o lado, um convite mudo. Nenhum abraço. O gesto teria sido uma mentira. Dentro, a casa parecia um mausoléu. Os móveis de madeira escura brilhavam com um polimento obsessivo, os tapetes persas alinhados com precisão cirúrgica. Acima da lareira apagada, o retrato de seu pai a observava. O artista capturara a dureza em seus olhos, mas a suavizara com um verniz de dignidade. Uma restauração desonesta, Giulia pensou. Ela conhecia bem o ofício. Um som a fez erguer o olhar para a grande escadaria. Mimmo. Ele descia devagar, um degrau de cada vez, arrastando os pés. As mãos enfiadas nos bolsos do jeans amassado, a barba por fazer, o cabelo escuro caindo sobre os olhos injetados. Era uma versão mais jovem e arruinada do homem no retrato. — Mimmo… — o nome escapou dela, um sopro. Ele parou a três degraus do chão, mantendo a distância como se ela fosse contagiosa. — A restauradora voltou para inspecionar as ruínas — disse ele, a voz um arranhão de vidro quebrado. — Mimmo, por favor. Não é hora para isso — interveio Rosalia, o tom baixo, mas afiado como uma lâmina. Ele a ignorou, os olhos cravados em Giulia. — Dez anos, Giulia. Você não atendeu o telefone nos últimos três aniversários dele. Precisou que ele morresse para você se lembrar do caminho de casa? Cada palavra era uma pedra atirada contra seu peito. Giulia sentiu o ar se comprimir nos pulmões. Todas as justificativas que construíra para sua fuga — a necessidade de se salvar daquele mundo, daquele pai — desmoronaram diante da dor crua no rosto do irmão. Ela não fugira apenas *deles*; ela o abandonara *com* eles. Incapaz de falar, ela apenas balançou a cabeça, um tremor quase imperceptível. A dor no rosto dele era um espelho de uma culpa que ela agora sentia como se fosse sua. Mimmo soltou uma risada curta, oca. — Bem-vinda de volta. Aproveite a festa. Ele se virou e subiu as escadas com a mesma lentidão fúnebre, o som de seus passos ecoando o vazio. A porta de seu quarto bateu no andar de cima, um trovão no silêncio da casa. Giulia continuou ali, parada, o corpo rígido. A mão de Rosalia pousou em seu braço, fria como o mármore sob seus pés. — Ele não quis dizer isso. O luto… — A mentira morreu no ar. — Seu quarto está como você deixou. Vá descansar. Descansar. A palavra era um insulto. Sem responder, Giulia se soltou do toque e deu as costas para a tia, caminhando na direção oposta, para as portas de vidro que davam para o terraço. Precisava de ar. Qualquer ar que não fosse o daquela casa. Lá fora, a noite a recebeu com uma brisa fresca. O jardim estava mergulhado em sombras, com luzes discretas iluminando os troncos retorcidos das oliveiras. Por um instante, o murmúrio distante das ondas em Mondello quase a enganou. Fechou os olhos. Fingiu ser apenas uma mulher num terraço na Sicília. Quando os abriu, a ilusão se estilhaçou. Lá embaixo, ao lado da piscina que brilhava como uma ferida de tinta azul, havia movimento. Dois homens de terno, imóveis como gárgulas. E um terceiro, de costas para ela. Não usava paletó. A camisa de linho branca, impecavelmente ajustada, desenhava a força contida de seus ombros. Ele gesticulou para um dos homens, um movimento curto, decisivo. Mesmo à distância, a autoridade que emanava dele era absoluta, a mesma que seu pai exalava como perfume. Então, ele se virou ligeiramente para atender a um celular, e a luz da piscina esculpiu seu perfil. O tempo parou. Giulia prendeu a respiração. Salvo Ingrassia. Não era mais a sombra de um rapaz atrás da cadeira de Cosimo Alagna. O rosto, antes liso, agora era anguloso, talhado por algo mais duro que o tempo. O cabelo escuro, mais curto, a linha do maxilar inflexível. Ele caminhou ao longo da borda da piscina, a voz inaudível, o corpo movendo-se com a calma letal de um predador em seu território. *Seu* território. A casa dela. Observando-o, paralisada no terraço, Giulia sentiu um frio que não vinha da noite. O homem que ela sempre culpara por ser o instrumento da violência de seu pai não estava mais apenas segurando a arma. Ele havia se sentado no trono.
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