O eco do cristal estilhaçado se dissolveu no silêncio denso do escritório. A sala, antes palco de uma humilhação pública, agora era um mausoléu para a fúria de Giulia. O notário, pálido, juntava seus papéis com uma pressa que beirava o pânico, evitando o olhar de todos.
Rosalia moveu-se com a eficiência de quem fecha uma ferida. Uma mão firme no ombro do advogado, um aceno de cabeça. Era uma dispensa, não um pedido. Então, ela se virou para Mimmo, encolhido no sofá como um animal ferido. Com uma suavidade que Giulia não ouvia há anos, ela murmurou algo e o guiou para fora. A porta se fechou com um clique abafado, um som que selou a arena. Estavam sozinhos.
Giulia permaneceu imóvel, o peito arfando, o ar carregado com o cheiro de ozônio e do uísque que seu pai bebia. Salvo continuava sentado na grande poltrona de couro atrás da escrivaninha. Ele não a olhava como um adversário, mas como um geólogo observa um vulcão: uma força da natureza que precisa entrar em erupção antes que se possa caminhar sobre a lava resfriada.
Ela sentiu um caco de vidro estalar sob seu sapato quando deu o primeiro passo em direção a ele. O som a ancorou.
— Levante-se — a voz dela saiu rouca, um arranhão na quietude.
Ele não se moveu. Apenas a observou, a cabeça levemente inclinada. A calma dele era um insulto.
— Essa cadeira não é sua. Levante-se.
Um músculo tremeu na mandíbula dele. Foi a única concessão.
— Foi tudo planejado, não foi? — ela prosseguiu, a voz ganhando força, cada palavra um projétil. — O braço direito leal, esperando pacientemente o velho leão cair. Quantos anos você passou ensaiando esse papel?
As acusações pairaram no ar, pesadas e venenosas. Ele as deixou cair no chão, inúteis como pedras contra uma muralha.
— Era a vontade do seu pai — a voz dele era grave, desprovida de emoção. Um fato, não uma desculpa.
Uma risada curta e amarga escapou dos lábios de Giulia. — Vontade? Meu pai controlava tudo nessa vida, menos o coração dos outros. Não me diga que, no leito de morte, ele virou um romântico.
Ela contornou os destroços do vaso e apoiou as mãos na escrivaninha, invadindo o espaço dele. A madeira polida estava fria sob suas palmas. Ela podia sentir o calor que emanava dele, uma energia contida.
— O que você prometeu a Rosalia para ela aceitar essa loucura? E Mimmo... — a voz dela vacilou, a imagem do irmão quebrado cortando sua fúria. — Você o destruiu de propósito. Para que ele fosse só um fardo, a minha corrente.
O olhar dele finalmente encontrou o dela, e pela primeira vez, havia algo além da impassibilidade. Havia uma escuridão que reconhecia a dela.
— Eu não precisei quebrar o seu irmão. E Rosalia sempre soube o que é preciso para manter esta família de pé.
— E o que é preciso é me vender? Para você? O garoto que meu pai tirou do esgoto e que agora se senta no trono dele? — A palavra “trono” saiu com o máximo de desprezo que conseguiu reunir.
Algo se alterou na máscara dele. Uma fissura quase invisível. Os lábios se comprimiram em uma linha dura.
— Cosimo me deu uma vida. A minha lealdade era o mínimo.
— Lealdade? — ela repetiu a palavra, saboreando a ironia. — Isso é lealdade? Ficar aí, lendo o roteiro que você mesmo escreveu, para tomar tudo que era dele? Inclusive a filha?
Ela se afastou da mesa, o incêndio da raiva dando lugar a uma clareza congelante. Ela o estudou de verdade, não o homem, mas a construção. A quietude deliberada. O terno caro que era quase uma armadura. E então, as peças se encaixaram com um estalo silencioso e terrível em sua mente.
— Foi você.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Pesado, sufocante. A quietude antes de um terremoto.
— O coração dele... — ela sussurrou, a ideia monstruosa tomando forma. — “Um infarto fulminante”, disse o médico. Era um homem velho, cheio de excessos, ninguém questionaria. Mas corações podem ser... ajudados. Um susto na hora certa. Uma notícia. Um erro na medicação.
Ela o acusava de algo que não tinha perdão, o pecado capital naquele mundo que ela abandonara. E, pela primeira vez desde que a leitura do testamento começara, ele reagiu de verdade.
Salvo fechou os olhos. Um gesto rápido, um espasmo. Como se uma luz insuportável o tivesse atingido. Quando os abriu, o abismo ainda estava lá, mas algo em suas profundezas se agitara violentamente.
— Você me dá nojo.
Ele se levantou. O movimento foi lento, fluido, mas carregado de uma força contida que fez o ar estalar. Ele não era tão grande quanto Cosimo, mas sua presença era mais densa, mais letal. Ele contornou a escrivaninha. Giulia prendeu a respiração, o corpo enrijecido, mas não recuou um centímetro.
Ele parou na janela, a luz do entardecer siciliano desenhando sua silhueta em carvão. O céu sangrava em tons de laranja e púrpura atrás dele.
— Fui leal a Cosimo Alagna até o último suspiro. O dele ou o meu.
— É o que todos os assassinos dizem.
Salvo se virou, o rosto na penumbra. — Eu não o matei, Giulia. — A voz dele era baixa, cortante como vidro. — Eu o obedeci. E vou continuar obedecendo.
— Pois eu não vou. Não sou um dos seus soldados.Prefiro ver esta família afundar a me casar com você.
Ela esperava uma explosão, uma ameaça. Em vez disso, ele deu um passo em sua direção. E outro. Parou tão perto que ela podia ver uma pequena cicatriz que cortava sua sobrancelha, um mapa de uma violência antiga.
— Você não tem esse direito — ele disse, a voz num sussurro que a envolveu, arrepiando sua pele.
— É a minha vida.
— Não é só a sua.
Ele não a tocou. Seu queixo apenas se inclinou, um movimento sutil na direção da porta por onde Mimmo saíra há pouco.
— Seu pai sabia exatamente o que estava fazendo. Pense no seu irmão.
Aquelas palavras não foram uma ameaça. Foram a chave da cela girando na fechadura. Não era sobre poder, era sobre responsabilidade. O peso de Mimmo. A âncora que Cosimo garantira que ela jamais conseguiria cortar.
Salvo a encarou por um momento que se estendeu por uma eternidade, certificando-se de que a sentença fora compreendida. Então, sem outra palavra, ele lhe deu as costas e saiu. O clique da maçaneta, o som de seus sapatos no mármore do corredor, a batida pesada da porta da frente se fechando. Cada som, um prego no caixão de sua liberdade.
Giulia ficou sozinha no escritório que escurecia, o coração batendo descontrolado não mais de raiva, mas de um terror absoluto. Seu olhar caiu sobre os cacos no tapete. O preço não era só a sua alma. Eram todas as almas que seu pai deixara para trás.