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Cap. 4 de 13 · 23%

O Testamento de Cosimo Alagna

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O ar da Villa Alagna mudou no instante em que a porta se fechou. Lá fora, o cheiro de jasmim e maresia prometia um mundo que respirava. Aqui dentro, o silêncio era denso, antigo, polido com a mesma cera de abelha que selava o chão de mármore. Era um silêncio de espera, pesado como uma pedra tumular. Sem uma palavra, Rosalia os conduziu ao escritório de Cosimo. Giulia não entrava ali desde que era uma garota que ainda acreditava em refúgios. A porta de carvalho estava aberta de um jeito que não era convite, mas armadilha. Lá dentro, o poder de seu pai ainda parecia pairar no ar, uma poeira fina sobre os livros de couro e o mogno escuro da escrivaninha. Sentado na cadeira dele — a cadeira que era um trono —, estava Salvo. Ele não a ocupava, mas a comandava, o corpo imóvel, a presença enchendo cada centímetro do espaço que antes fora o centro do universo de Giulia. Giulia sentiu os ombros se contraírem. Aquele lugar era sagrado e profanado ao mesmo tempo. Mimmo se largou em um sofá, o corpo afundando no couro como se a gravidade o puxasse para o centro da terra. Rosalia postou-se perto da lareira, reta, as mãos cruzadas, uma sentinela do luto. Um homem pálido de terno cinza, o notário, levantou-se com um nervosismo que o fazia parecer ainda menor. Seus óculos escorregaram pelo nariz suado. — Podemos começar — a voz de Rosalia cortou a quietude. O notário pigarreou, o som áspero ecoando na sala. Abriu uma pasta de couro e seus olhos percorreram o ambiente, evitando deliberadamente o homem na cadeira principal. — O testamento do senhor Cosimo Alagna. Redigido e assinado há seis meses. Em pleno e lúcido domínio de suas faculdades mentais. — Ele fez uma pausa, como se desafiasse alguém a discordar. O silêncio foi a única resposta. A leitura começou, um zumbido monótono de propriedades, contas na Suíça e doações piedosas à igreja que acabara de acolher a farsa do funeral. Giulia não se permitiu desligar. Ao contrário, ficou hipervigilante, a mente afiada como vidro quebrado. Cada palavra era um elo na corrente que a prendia àquele lugar. Ela só precisava encontrar o ponto de ruptura. Com uma assinatura, estaria livre. O seu ateliê em Milão, o cheiro limpo de terebintina, a solidão ordenada de sua vida — tudo a esperava, do outro lado daquele papel. —...para meu irmão, Mimmo Alagna... — a voz do notário a fisgou. —...uma pensão vitalícia, administrada por um fundo, com pagamentos mensais condicionados à sua... — ele hesitou por um milésimo de segundo — ...sobriedade e conduta apropriada. Mimmo se encolheu, o rosto se contorcendo numa máscara de humilhação. A mão de Cosimo, fria e pesada, alcançando-o do túmulo. — Para minha irmã, Rosalia Alagna, o usufruto vitalício da Villa Alagna e a continuação de suas funções administrativas... O rosto de Rosalia permaneceu uma tela em branco. Era o esperado, o devido. — E agora, os ativos principais. O controle das empresas Alagna, as vinícolas de Bagheria, todos os investimentos e participações… — O ar na sala tornou-se rarefeito. Giulia prendeu a respiração, o coração um pássaro preso contra suas costelas. Era agora. A liberdade ou a sentença. — ...serão legados integralmente à minha única filha, Giulia Alagna. Um arquejo sufocado escapou de Mimmo. Rosalia fechou os olhos, uma única vez, a respiração contida. Giulia não se moveu. Era tudo. Mais do que ela jamais quis. Um império construído sobre segredos e sangue. Um fardo projetado para esmagá-la. O notário fez uma pausa dramática, ajeitando o peso nos pés. Seus olhos lançaram um olhar rápido, quase apavorado, para Salvo, antes de voltarem, submissos, para o documento. — Existe, no entanto, uma cláusula. — A voz dele caiu para um sussurro, como se compartilhasse um segredo sujo. — Uma condição irrevogável. O zumbido distante de um cortador de grama no jardim ao lado era o único som que quebrava o vácuo. Um som de um mundo normal, um mundo que já não pertencia a Giulia. — Conforme o Artigo Sete… — o notário engoliu em seco, as palavras agora saindo com visível dificuldade. — A transferência de controle só se tornará efetiva sob a única e irrevogável condição de que, no prazo de três meses, a senhorita Giulia Alagna contraia matrimônio com o senhor Salvatore Ingrassia. O tempo congelou. Um som estranho, um misto de riso e engasgo, rasgou a garganta de Giulia. Ela levou a mão à boca, mas era tarde demais. O som ecoou pelo escritório, feio e descontrolado. Num movimento brusco, ela se pôs de pé, a cadeira deslizando para trás com um grito de madeira arranhada. Todos os olhos se viraram para ela. Menos os de Salvo. Ele continuava a encarar um ponto invisível na parede, o seu perfil recortado contra a janela, uma estátua indiferente ao cataclismo. — Repita — a voz de Giulia era um fio de aço gelado. O notário estremeceu. — O… o legado é condicionado ao casamento. — Isso é uma piada doentia. — Não era uma pergunta. Era a única verdade possível. Seu olhar varreu a sala em busca de sanidade, mas encontrou apenas o rosto chocado de Mimmo e a máscara impenetrável de Rosalia. — É ilegal. — Seu pai foi… meticuloso, senhorita. O documento é inatacável — disse o advogado, encolhendo-se ainda mais. — Ele especifica que o arranjo visa garantir uma transição de poder estável e a proteção da família contra… concorrência hostil. Sem esta união, a posição dos Alagna se torna, e cito, ‘insustentável’. *Concorrência hostil.* As mãos de Nunzio Terranova nela. Sua voz sibilando no ouvido. *Há tanto em jogo.* — E se eu recusar? — as palavras arranharam sua garganta. O notário olhou de esguelha para Rosalia, que lhe deu um aceno quase imperceptível. — Se a condição não for cumprida em noventa dias… todo o patrimônio passa a ser administrado por um conselho nomeado por seu pai. A saber: a senhora Rosalia Alagna, o Padre Bartolo Cusumano e… — ele fez uma pausa final — …o senhor Salvatore Ingrassia. A gaiola era perfeita. De um lado, sua liberdade, mas com a família abandonada à própria sorte. Do outro, um império, mas acorrentada ao homem que personificava tudo o que ela odiava. A raiva chegou como uma onda de calor. Subiu por seus pés, incendiando suas veias. O tremor em suas mãos não era de medo, mas de fúria pura. Ela finalmente se virou para ele. Para o homem na cadeira de seu pai. — Você. Salvo ergueu o olhar. O movimento foi lento, deliberado, cada músculo controlado. A ausência de surpresa em seu rosto foi o insulto final. Ele não era um guardião. Era um carcereiro que esperava há anos pela chegada de sua prisioneira. — Você sabia. Não era uma pergunta. A acusação pairou no ar, densa e venenosa. — Giulia, acalme-se… — começou Rosalia, a voz um aviso. — Não se atreva. — O tom de Giulia era baixo, cortante. Ela se virou para Salvo novamente, ignorando os outros. — A vida dele, as regras dele, o dinheiro dele… Mesmo morto ele me assombra! — Num gesto cego e violento, sua mão varreu a mesinha ao lado. Um vaso de cristal e um cinzeiro de mármore voaram, estilhaçando-se no tapete persa com um estrondo agudo. Os cacos brilharam como diamantes quebrados. Mimmo se encolheu. Rosalia deu um passo à frente, mas parou. — Eu não sou uma propriedade! — Giulia cuspiu as palavras, o peito arfando, um dedo trêmulo apontado para Salvo. — Não serei negociada como um pedaço de terra para selar um maldito acordo! Prefiro ver tudo isso queimar! A explosão de som morreu, deixando um zumbido no silêncio que se seguiu. Ela estava no meio da sala, ofegante, o corpo inteiro vibrando, os olhos em brasa, esperando um grito, uma repreensão, qualquer coisa. Nada. O silêncio dele era a resposta mais cruel. Desesperada, ela encontrou seu olhar. Salvo não se moveu um centímetro, mas seu queixo se ergueu minimamente. Seus olhos escuros, profundos, fixaram-se nos dela. Não havia triunfo neles. Não havia pena. Havia apenas o reconhecimento mudo de um fato terrível e imutável. Era o olhar de um homem que se encara no reflexo do aço de uma faca, um segundo antes de fazer o corte que mudará tudo.
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