O aquecedor da oficina tossiu três vezes, um som metálico e seco, e morreu. O silêncio que se instalou foi mais frio que o ar. Kim Ha-eun sentiu o gelo subir do assoalho de madeira, um inimigo invisível que a cola de peixe na sua bancada já combatia, formando uma película opaca em sua superfície. Ela ajeitou o casaco gasto sobre o avental e voltou o olhar para o diário aberto do avô.
A palavra circulada em tinta desbotada parecia pulsar sob a luz fraca da manhã: *leilão*. Ao lado, uma linha do tempo improvisada com recibos e notas fiscais mostrava a saúde financeira da ‘Som Eterno’ desmoronando, mas a peça que conectava a venda à dívida continuava faltando.
— Você não dormiu, não é? — A voz de Kim Ha-yoon veio dos degraus dos fundos. Ela descia prendendo o cabelo, com a fatia de pão matinal entre os dentes e o envelope do YS Group debaixo do braço.
Ha-eun virou mais uma página amarelada. — Faça uma pergunta útil.
Ha-yoon tirou o pão da boca. — Certo. Quantas horas você ficou encarando essa palavra até ela confessar alguma coisa?
— Não estou encarando. Estou cruzando datas. — A irritação em sua voz era fina como uma corda esticada demais.
— E elas confessaram? — Ha-yoon pousou o envelope sobre a bancada, cobrindo um espaço vazio na cronologia. Um ato deliberado. — Hoje à noite, Ha-eun.
— Eu sei do prazo. — Ela empurrou o envelope para o lado com o dedo.
— Sabe da parte em que você precisa ler a proposta inteira antes de chamar os advogados deles de abutres corporativos?
— Eu posso xingar depois de ler?
— À vontade. — Ha-yoon vestiu o próprio casaco. — Mas preciso confirmar o tratamento antes do fim do dia. Sem adiamentos, sem “vamos dar um jeito”.
Ha-eun abriu uma gaveta e tirou uma pequena pilha de notas, deixando-a ao lado da bolsa da irmã. Ha-yoon a olhou e, com um suspiro, devolveu o dinheiro para dentro de um envelope de conta de luz. — Pare com isso.
— Com o quê?
— De escolher qual incêndio apagar com um copo d’água.
O sino sobre a porta da frente tocou, um som claro e inesperado que cortou a tensão. As duas se viraram. Seo Jin-woo entrou de costas, manobrando uma caixa longa e escura. A neve nos ombros do seu casaco caro começou a derreter imediatamente, escurecendo o tecido. Um homem o ajudou a apoiar a caixa no chão e se retirou em silêncio.
Ha-yoon mediu o objeto e depois Jin-woo. — A correspondência cresceu desde ontem.
— Não é correspondência — respondeu ele, a voz baixa no ar frio.
— Que pena. Eu adoraria ver minha irmã expulsar uma caixa.
Ela passou por ele, o ombro roçando o dele sem cerimônia. — Hoje à noite — disse para Ha-eun, apontando para o envelope antes de sair. O sino tocou de novo. A lufada de ar gelado fez o recorte de jornal sobre a bancada vibrar.
Jin-woo seguiu o movimento do papel com o olhar. Ha-eun fechou o diário num gesto rápido e protetor.
— Eu disse que voltaria com um instrumento quebrado — ele falou, quebrando o silêncio.
— Eu estava sendo irônica.
— Você deveria ter especificado.
Ele tirou as luvas de couro e as guardou no bolso. A caixa de madeira escura, com ferragens antigas, ocupava quase todo o espaço livre. Ha-eun cruzou os braços, uma barreira humana entre ele e sua bancada.
— Adiaram o inventário?
— Para o fim do prazo oficial.
— Não foi o que perguntei.
— Foi o que eu consegui — ele rebateu, e por um instante, a fachada de executivo se trincou, revelando um cansaço que ela não esperava.
Jin-woo passou o polegar por uma marca de umidade na tampa da caixa. — Posso abrir?
— Você trouxe até aqui sem saber o que tem dentro?
— Sei o que tem dentro. Não sei se o seu chão é nivelado.
Ha-eun bufou, mas pegou duas cunhas de madeira debaixo da bancada. Testou a estabilidade da caixa com a palma da mão; uma das pontas oscilou. Ela encaixou a primeira cunha e depois a segunda com precisão. — Agora é.
Ele abriu as travas. Dois cliques metálicos e secos. Dentro, aninhado em camadas de seda desbotada, repousava um gayageum antigo. A madeira do tampo tinha um brilho quente, cor de mel, mas uma corda rompida deixara um risco fino na superfície envernizada. Ha-eun largou o pano que segurava.
— Isso não devia ter saído nesse frio.
— O transporte foi climatizado.
— E ficou quanto tempo lá fora?
— Menos de dois minutos.
— Um minuto basta se a madeira estiver ressecada.
Ela se ajoelhou, as mãos pairando sobre o instrumento, sem tocar. O gesto era quase reverente. — De quando é?
— Não há registro completo. É da coleção particular da minha família.
Ha-eun se ergueu, a desconfiança voltando a gelar seu rosto. — E você resolve trazer uma relíquia da sua família para a mulher que está tentando impedir sua empresa de demolir esta oficina?
— Você pediu um instrumento quebrado.
— Eu também mandei você embora.
— Escolhi atender ao pedido mais útil.
Ela pegou uma pequena lanterna, o feixe de luz revelando uma fissura fina ao longo da fibra da madeira. — A corda é o menor dos problemas. Há uma abertura aqui.
Jin-woo se agachou do outro lado da caixa. O espaço entre eles encolheu. Ha-eun sentiu o calor que irradiava dele, um contraste gritante com o frio da oficina. — Separação da estrutura? — ele perguntou, a voz mais próxima agora.
— Talvez. Preciso remover a seda e deixar a madeira aclimatar. Se eu forçar agora, a fissura pode aumentar. Leva um dia, no mínimo, só para avaliar.
— Madeira não esconde nada — ele disse, o olhar fixo na fissura. — Quem a consertou antes, sim.
Ha-eun baixou a lanterna. — Você ensaiou essa frase?
— Não. Se tivesse, seria melhor. — Um sorriso mínimo, quase imperceptível, tocou o canto de sua boca. Um som curto escapou dela, um quase riso que ela disfarçou limpando a garganta.
— A seda primeiro — disse ela, recompondo-se. Ele se posicionou para ajudar.
— Pelas laterais. Sem arrastar sobre os cavaletes.
A mão dela parou. — Você entende de gayageum.
— O suficiente para não estragar uma peça antiga. Nem tudo que sei veio de relatórios do YS Group.
Ele segurou uma ponta do tecido; ela, a outra. — No meu ritmo — ela ordenou.
— Você diz isso para todos os clientes?
— Só para os que aparecem com uma ordem de despejo no bolso.
— Não trouxe nenhuma hoje.
— Que atencioso.
— Era a intenção.
A resposta veio limpa, sem ironia. Por um segundo, Ha-eun perdeu o compasso. A seda deslizou, e um dos cavaletes de madeira inclinou. A mão dele se moveu rápido, os dedos firmes apoiando a base antes que caísse. Eles terminaram de remover o tecido em um silêncio sincronizado. Por um instante, o lado da mão dela roçou o calor dos dedos dele. Ha-eun puxou a mão como se tivesse se queimado e, ao dobrar a seda, errou a dobra e teve de recomeçar.
— Por que este instrumento? — perguntou, a voz um pouco tensa demais.
— Porque precisa de um restauro de verdade, não de uma troca de peças para acelerar a entrega. Concluí isso quando vi o violino que você estava refazendo.
— A peça que eu estraguei.
— A peça que você decidiu não esconder.
Do lado de fora, a vibração de uma máquina pesada subiu pelo assoalho. Ha-eun apoiou a mão instintivamente sobre o tampo do gayageum, protegendo-o. Jin-woo não disse nada, mas seus olhos seguiram o gesto.
— Isso não compra tratamento especial para o projeto — ela avisou quando o ruído diminuiu.
— Estou comprando um serviço. Com meu dinheiro. — Ele tirou um envelope do bolso e o pôs no balcão.
Ha-eun o abriu. O adiantamento era mais que suficiente. Cobria o tratamento de Ha-yoon e o conserto do aquecedor. Ela contou as notas, separou duas e empurrou o restante de volta para ele. — Este é um depósito justo. O resto parece compra de consciência.
— Minha consciência custa bem mais caro.
Jin-woo guardou as duas notas sem discutir. — Há uma condição.
— Claro que há.
— Quero acompanhar a avaliação. A família exige um registro de cada passo.
— Traga uma câmera.
— Prefiro ver pessoalmente.
Ela o encarou. Se recusasse, o dinheiro iria embora. Ha-yoon não teria o tratamento confirmado. Se aceitasse, ele teria uma desculpa para estar ali, dentro de suas defesas, enquanto o prazo corria. Ela pegou o caderno de serviços. Anotou o valor, a data, o instrumento. A ponta do lápis arranhou o papel.
— Amanhã, oito da manhã. Se trouxer alguém do projeto, o gayageum volta para a caixa.
— Venho sozinho. E não toque em nada sem pedir.
— Eu acabei de impedir seu cavalete de cair.
— Depois de me distrair. Você se distrai com facilidade?
A ponta do lápis se partiu. Ha-eun a colocou ao lado do caderno, um pequeno túmulo de grafite. — Oito e dez. Para você aprender que aqui o tempo é meu.
Ele assentiu, vestindo o casaco. Antes de fechar a caixa de transporte, olhou para o gayageum na bancada. — Ajudaria se o movêssemos para a bancada principal.
Juntos, ergueram o instrumento. O peso os forçou a ficarem próximos, o ombro dele firme contra o dela. Ha-eun guiou a descida. — Três, dois… agora. — O gayageum pousou sem som.
Jin-woo se afastou, uma marca de poeira clara na manga do seu casaco. Ele não a limpou.
— O tampo é de paulownia, a base é mais densa… talvez castanheira — disse ela, mais para si mesma.
— Zelkova — ele corrigiu, a voz certa de si.
Ha-eun o olhou, surpresa. — Amanhã você traz seu diploma de luthier com a câmera.
— Não confie em qualquer papel só porque é antigo — ele disse, mudando de assunto, o olhar se desviando para o diário fechado. — É um conselho.
— Ou um aviso?
— Os dois costumam ter a mesma voz. Oito e dez.
Ele saiu. Ha-eun trancou a porta e guardou o dinheiro, separando a quantia exata para Ha-yoon. Então, cobriu o gayageum com um tecido de algodão e começou o exame preliminar. Perto da base, escondida sob uma tira de seda decorativa, ela sentiu um relevo. Uma marca de luthier queimada na madeira. Um círculo incompleto, atravessado por três linhas sinuosas.
Ela nunca tinha visto aquela marca. Mas era familiar.
Com a corrente de ar que restara da porta, o diário do avô se abriu numa página que ela ainda não lera. Na margem, um rabisco rápido feito a lápis. O mesmo desenho.