A frase dele, precisa como um bisturi, cortou a fúria e deixou o nada. *Você está alimentando a sua própria cela*. A energia que Elara convocara implodiu, deixando para trás o gosto de ozônio e uma humilhação tão fria que queimava. Ela permaneceu caída, o corpo protestando contra o chão de quartzo, e observou-o erguer-se. A luz dourada da prisão deslizava por sua armadura negra como água no óleo, incapaz de maculá-la. Ele era uma negação. Um vácuo engolindo a luz.
Kael não ofereceu mais nenhuma palavra. Deu as costas, um gesto de demissão final, e atravessou a parede de energia sem hesitar. A cela, antes um vespeiro de poder zumbindo em resposta ao seu desafio, mergulhou num silêncio profundo e expectante. Sozinha. A solidão era uma sentença mais pesada que as paredes.
Com os músculos tremendo, Elara se arrastou para o centro da cela, longe do brilho acusador. A dor em seus membros era um eco distante, um ruído de fundo. Havia outra dor, um pulsar surdo nas fundações de sua alma, onde o poder da Fênix se entrelaçava com algo muito mais antigo. E com o poder, vieram as memórias — não como pensamentos, mas como assaltos.
O cheiro de poder queimado se dissipou, substituído pelo aroma fantasma de terra úmida após uma chuva de verão. E com ele, o peso de mãos firmes em sua cintura.
*Ele a rodopiava sob um céu cinzento que prometia tempestade. O riso dele, baixo e quente contra sua orelha. A lã áspera de seu casaco roçando em seu rosto, o cheiro dele — couro e segurança. Um futuro prometido em sussurros. Um reino construído sobre justiça, não sobre poder.*
A imagem se despedaçou. Elara ofegou, os olhos se abrindo para a luz dourada e estéril. O rosto dele esteve ali, por um instante, nítido como a vida. Agora, restava apenas a queimadura da promessa e o frio da verdade que a sucedeu. Ela abraçou os joelhos, o corpo se encolhendo contra uma nova onda de recordações que a arrastava para o fundo.
A verdadeira prisão não eram aquelas paredes. Era o mosaico estilhaçado em sua mente.
*O altar de pedra, gélido em suas costas. As mesmas mãos que a rodopiaram com ternura agora a prendiam com a força de um fanático. O rosto dele, pairando sobre o dela. O amor em seus olhos, substituído por uma devoção terrível que não a via mais. Ele não via Elara. Via um portal. Um sacrifício.*
*— É necessário — a voz dele, um fio de navalha disfarçado de consolo.*
*Então, o brilho prateado da lâmina. O mergulho. A dor aguda no peito não foi o pior. O pior foi a compreensão fria e absoluta que veio antes: ele a estava quebrando para usar seus pedaços. O abandono era uma ferida muito mais profunda que a da adaga.*
Um soluço seco rasgou sua garganta. As lágrimas que a raiva mantivera represadas finalmente romperam, quentes e amargas. Não era heroína, nem rainha, nem Fênix. Era a mulher que amara o homem que a assassinara. A fúria que a sustentara nos últimos dias desabou, revelando a estrutura podre por baixo: dor crua, vergonha e a agonia de ter sido tão cega. A força que Kael detectara nascera no exato momento de sua maior fraqueza.
Ela não ouviu seus passos. A própria presença dele era uma perturbação no silêncio. Quando ergueu o rosto molhado, ele estava lá, dentro da cela. A luz dourada ondulava atrás dele, mas a sombra que ele projetava parecia sugar a própria cor do ar. Seus olhos cinzentos, antes distantes, agora estavam cravados nela com uma intensidade predatória. Não era desprezo. Era foco.
— Sua energia mudou — a voz dele era baixa, um fato declarado sem rodeios. — A fúria cessou. Agora é apenas... isso.
“Isso” era o colapso, a dor que a fazia se dobrar sobre si mesma. Elara virou o rosto, esfregando a bochecha com as costas da mão num gesto inútil. — Voltou para se deleitar com a minha fraqueza?
Ele deu um passo, a distância entre eles encolhendo perigosamente. A sombra dele a cobriu por completo. — A energia que você usou contra a barreira era instável. Emprestada. Agora, a fonte dessa energia está em frangalhos. — Ele se agachou, sua armadura de ébano emitindo um som metálico quase inaudível. O olhar dele era um instrumento de dissecação. — São essas as memórias que te afogam?
Seu queixo tremeu antes que ela pudesse controlá-lo. Aquele homem via demais. Ele não apenas sentia seu poder, ele lia sua gramática, sua origem. — São as memórias do que me tornou isto — ela cuspiu a palavra, como se fosse veneno.
— Um sacrifício — afirmou ele. O olhar dele desceu para o centro do peito dela, para o ponto exato onde a memória da lâmina ainda ardia. Ele não perguntava; ele sabia. — Um ritual de sangue que te quebrou e te trouxe para o único lugar capaz de te conter.
O ar ficou rarefeito. Ele estava perto demais, uma montanha de controle e disciplina de ferro, o oposto absoluto do caos que a consumia. Era sufocante e, de uma forma terrível, estabilizador.
— Quem ousou derramar o sangue de uma Fênix no altar de um deus esquecido?
A alcunha a fez eriçar. — Meu nome é Elara.
Por um instante, o ritmo de sua respiração mudou. Um músculo se contraiu em sua mandíbula, uma reação mínima, quase imperceptível. Ele registrou o nome, mas o arquivou como um detalhe irrelevante. Seus olhos, no entanto, não deixaram o rosto dela, traçando o caminho úmido da lágrima em sua pele, a vermelhidão que denunciava sua dor.
A armadura de desafio dela estava em ruínas, e a percepção disso pareceu atiçar uma nova linha de investigação nele, mais precisa, mais pessoal. A voz dele baixou, um sussurro que cortava mais fundo que qualquer grito.
— Aquele que empunhou a lâmina… ele te amava?