A Última Carta do Farol
Cap. 3 de 20 · 10%

O Nome na Carta

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O envelope com o nome de Liana Vargas passou a manhã inteira sobre a escrivaninha, intacto, como se respirasse. Elara Vargas organizou pinças, luvas, pincel e saquinhos sem acidez em uma fileira perfeita, mas não tocou na aba lacrada. Era só papel. Papel antigo, amarelado, escrito pela mão de um morto. Mesmo assim, quando ela puxou a faca de abrir cartas da gaveta, os dedos recusaram o movimento. — Não agora — murmurou. A casa respondeu com o estalo baixo da madeira e o mar batendo lá embaixo. Nada mais. Nenhum passo no corredor, nenhuma marca nova de água. Ainda assim, Elara olhou para a porta antes de voltar à mesa. Colocou o envelope de Liana sobre uma folha de papel-manteiga e examinou as bordas com cuidado. A tinta do nome não estava borrada. Artur Vargas escrevera aquelas letras com firmeza, sem tremor, sem pressa. Como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Como se tivesse escolhido esconder aquilo dela. Elara passou o polegar pela lateral do envelope, sem romper o lacre. O impulso de abrir veio quente, quase violento. Ela imaginou a voz da mãe ali dentro. Ou a ausência dela. As duas coisas a assustavam do mesmo jeito. Guardou a faca de volta na gaveta. Depois pegou outro maço do baú. A fita azul que prendia as cartas se desfez com um suspiro seco. A primeira não tinha nome completo, apenas uma indicação escrita às pressas: para a mulher da casa de portão verde. A lateral já estava rasgada, então Elara abriu por ali. A letra era redonda, apressada. “Seu bolo de milho ficou melhor que o meu, mas vou negar até morrer. Devolvo a forma quando descobrir o truque.” No verso, havia uma receita sem medida certa: um punhado, um tanto, mexer até dar ponto. Elara quase sorriu. Quase. Artur jamais escreveria assim. Ele era do tipo que media até silêncio. A segunda carta vinha dobrada em quatro, com uma mancha circular perto do fim. “Não briguei pelo dinheiro do peixe. Briguei porque você foi embora sem fechar a janela, e a chuva entrou no berço.” Elara leu devagar. Duas páginas sobre fraldas molhadas, sardinha estragada, telhado pingando. Coisas pequenas, domésticas, quase bobas. Então, na última linha, uma frase sem enfeite algum: “Volta antes que ele aprenda a andar sem você.” Ela pousou a carta com mais cuidado do que precisava. A terceira tinha só três linhas. “Fiquei com a tesoura. Você ficou com minha irmã. Estamos quites.” Dessa vez, Elara soltou uma risada curta pelo nariz. Pegou uma etiqueta e escreveu: humor ou guerra doméstica. Parou, olhou para a frase e riscou o ou. Ficou: humor e guerra doméstica. As cartas seguintes foram abrindo uma cidade inteira em cima da mesa. Um pedido de desculpas por uma rede rasgada. Uma reclamação por um livro emprestado havia dois verões. Um bilhete de aniversário nunca entregue, com uma flor seca quebrada ao meio. Uma carta de um filho pedindo que a mãe não vendesse a cadeira do pai, porque ele ainda lembrava o rangido dela. Uma lista de compras que virava confissão no rodapé: “Comprei café amargo porque era o que você gostava.” Elara tentou separar tudo por assunto. Amor. Briga. Despedida. Dívida. Pedido. Mas, em poucos minutos, as pilhas perderam sentido. O amor aparecia no café amargo. A saudade, numa cadeira velha. A raiva, numa tesoura roubada. Então ela mudou o critério: abertas, lacradas, frágeis, sem destinatário, risco de perda. A carta de Liana Vargas ficou sozinha. Elara olhou para ela mais uma vez. O nome da mãe parecia maior do que antes. O celular vibrou na beirada da mesa e quase derrubou um envelope. Elara o segurou no ar, o coração batendo errado. Na tela, mensagens do corretor: documentos pendentes, fotos do farol, previsão de visita, valores possíveis. Uma vida simples. Assinar, vender, ir embora. Ela digitou: “Sigo com a venda.” O polegar pairou sobre enviar. Do lado de fora, uma rajada de vento empurrou a janela do quarto de Artur. A madeira bateu uma vez, forte. Elara levantou o rosto. Pela fresta do corredor, viu uma linha fina de umidade brilhando perto do rodapé. A casa continuava cedendo água, segredos e barulhos. Ela apagou a mensagem. Antes que conseguisse escrever outra coisa, três batidas vieram da porta dos fundos. Elara ficou imóvel. Não eram os passos da noite. Eram batidas humanas, impacientes, com barro na sola. — Elara? — A voz de Gael Monteiro atravessou a madeira. — Abre só uma fresta. A chuva virou de lado. Ela pegou a pasta onde guardara o envelope de Liana e só então foi até a porta. Gael estava do lado de fora com a camisa úmida no colarinho, uma lona dobrada debaixo do braço e uma caixa pequena na mão. O cabelo escuro grudava na testa. Ele olhou primeiro para ela, depois para a sala atrás dela. — Trouxe lona — disse. — A janela do quarto de Artur não segura mais nada. — Você sempre aparece quando a casa ameaça cair? — Só quando alguém insiste em morar dentro dela. — Eu não estou morando. Ele ergueu uma sobrancelha. Elara abriu mais a porta, irritada por não ter resposta melhor. — Não pisa nas cartas. Gael entrou devagar, limpou as botas no tapete velho e parou diante da mesa. O olhar dele passou pelos envelopes, pelas etiquetas, pelos saquinhos transparentes. Não tocou em nada. — Então era isso que ele escondia. — Você sabia? — Que Artur guardava coisas? Sim. Que guardava meio mundo em papel? Não. Elara apertou a pasta contra o corpo. Gael notou. Fingiu que não. — Tem uma carta para Liana Vargas — ela disse. A expressão dele mudou pouco. Só o bastante. O maxilar travou, e a mão que segurava a caixa desceu um centímetro. — Você abriu? — Não. — Vai abrir? Ela desviou o olhar para a escrivaninha. — Ainda não. Gael assentiu. Não perguntou quem era Liana. Isso incomodou Elara mais do que se ele perguntasse. — Artur não fazia nada sem motivo — ele disse. — Isso é para me tranquilizar? — Não. Quase um sorriso puxou a boca dela, contra a própria vontade. — Péssimo consolo. — Eu avisei que vim pela lona. Ele foi até o quarto e começou a prender a janela. O martelo bateu em intervalos curtos. Três pancadas. Pausa. Duas. Aquele som ocupou a casa de um jeito estranho, firme, quase prático demais para um lugar cheio de fantasmas. Elara voltou ao celular. O corretor enviara outra mensagem: “Posso confirmar o anúncio hoje?” Dessa vez, ela não pensou tanto. Digitou: “Suspenda qualquer anúncio do farol por enquanto. Ainda não autorizo a venda.” Enviou. A tela escureceu logo depois, bateria em quatro por cento. — Perfeito — ela sussurrou. O martelo parou. Gael apareceu no corredor com poeira no ombro e um prego entre os dedos. — A casa venceu? — Por enquanto, eu venci o corretor. — Difícil saber qual dos dois dá mais trabalho. Elara pousou o celular virado para baixo. — Não vou vender antes de entender por que Artur escondia essas cartas. E por que deixou uma para minha mãe. Gael ficou quieto. O silêncio dele não parecia vazio. Parecia escolha. — Isso pode abrir coisa que ficou fechada por um bom motivo — disse por fim. Elara encarou a pasta sobre a mesa. — Passei a vida inteira do lado de fora dessa porta. Ele baixou os olhos para a carta de Liana, sem chegar perto. — Então abre quando for você segurando a chave. Não quando o medo empurrar. A frase a pegou desprevenida. Elara fingiu procurar uma etiqueta. — Você ensaia essas coisas no espelho? — Só as ruins. Ela colocou uma etiqueta nova sobre a pasta e escreveu: não abrir sem registrar estado original. Parou. Acrescentou: e sem coragem. Gael leu de longe. Não comentou. Antes que o silêncio ficasse grande demais, duas pancadas soaram na porta principal. Diferentes das dele. Medidas. Limpas. Quase educadas. Elara e Gael se olharam. Dessa vez, ele não tomou a frente. Apenas ficou meio passo atrás, perto o bastante para ajudar se a tranca emperrasse. Elara abriu a porta. Na soleira, uma mulher segurava uma pasta seca sob um guarda-chuva preto. Nem a barra da roupa parecia tocada pela chuva. — Elara Vargas? — perguntou ela, com um sorriso pequeno demais para ser gentil. — Beatriz Alencastro. Precisamos falar sobre as cartas de Artur Vargas.
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