Luna Rejeitada
Cap. 3 de 10 · 20%

Sangue na Fronteira

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Maya acordou com gosto de terra na boca e o pulso amarrado com linho cerimonial. Por alguns segundos, não soube onde terminava seu corpo e começava a dor. Havia uma pressão branca atrás dos olhos, um buraco ardendo no centro do peito, como se alguém tivesse enfiado ali uma brasa sagrada e esquecido de apagá-la. O cheiro do Salão da Lua ainda estava nela: pedra fria, cera queimada, sangue antigo, humilhação. E cedro. Cedro escuro, quente, impossível. Kaelen. A lembrança veio inteira. Eu rejeito o laço. Maya virou de lado e vomitou sangue na bacia de cobre ao lado da cama. O som baixo, molhado, pareceu alto demais no quarto estreito das Ômegas. Alguém havia trocado suas roupas; a túnica simples grudava em sua pele com suor seco. A marca no pulso não cicatrizara. A meia-lua partida latejava sob o curativo, queimando através do tecido como carvão vivo. Ela tentou chamar sua loba. Nada respondeu. Não um uivo. Não uma respiração. Nem mesmo aquele roçar tímido que a acompanhara a vida inteira, aquela presença encolhida no fundo do peito. Só silêncio. Um silêncio arrancado. Maya apertou os dentes até a mandíbula doer. Não chorou. Havia chorado por dentro no salão, diante de todos, e aquilo bastava para uma vida inteira. Na porta, uma sombra se moveu. — Maya? Talia. A jovem entrou sem fazer barulho, carregando uma lamparina pequena. Seus olhos estavam inchados. O cabelo, sempre preso com cuidado, caía em fios soltos ao redor do rosto. — Você não devia estar acordada. Maya passou a língua pelos lábios rachados. — Eu devia estar morta? A pergunta ficou entre elas, nua. Talia desviou o olhar. — Ninguém sabe o que devia acontecer quando um Alfa rejeita uma Alma Gêmea marcada diante da pedra lunar. O Conselho fechou o Salão. Ronan está tentando manter os guardas calados. Os mind-links secundários ainda falham. Minha irmã não consegue ouvir o próprio companheiro desde a meia-noite. A Matilha estava sangrando. Por causa dela. Não. Por causa dele. A diferença era uma lâmina que Maya segurou com as mãos nuas. — Kaelen? — O nome saiu antes que ela pudesse morder a língua. Talia ficou muito quieta. O ar do quarto pareceu se comprimir. — Está com Seraphine e o Conselho. Claro. A futura Luna. Maya fechou os olhos. A dor no peito se abriu com dentes novos, mas por baixo dela havia outra coisa. Um calor baixo. Vermelho. Antigo. — Ele perguntou por mim? Talia não respondeu rápido o bastante. Maya riu sem som. — Entendi. — Maya... — Não diga meu nome como se fosse um curativo. Talia mordeu o lábio até empalidecer. — Ronan colocou dois guardas no corredor. Não para prender você. Para proteger. — Proteger de quem? Talia olhou para a janela fechada. A madrugada apertava do lado de fora, densa e azul, ainda sem pássaros. O território da Lua Sangrenta dormia como um animal ferido, e Maya sentia sua respiração pesada através das tábuas, através da pedra, através do sangue que pingara na fissura do Salão. — De todos — Talia murmurou. — De Seraphine. Dos que acham que você amaldiçoou a Pack. Dos que acham que você devia aceitar um exílio formal ao amanhecer. Dos que acham que uma Mate rejeitada atrai renegados. A palavra acertou Maya no estômago. Renegados. Lobos sem Pack. Sem Alfa. Sem juramento. Animais de olhos opacos que viviam além das fronteiras, cheirando sangue fraco como corvos. Maya empurrou o cobertor. As pernas falharam quando seus pés tocaram o chão. Talia tentou segurá-la, mas Maya recuou antes do contato. — Não. — Você não consegue nem ficar de pé. — Então vou rastejar. — Para onde? Maya encarou a janela. Além dela, havia o pátio, os muros, a floresta de pinheiros negros e, depois, a linha invisível onde o domínio da Lua Sangrenta acabava. A fronteira. O lugar onde o laço da Pack deixaria de pressionar sua nuca. Onde ninguém poderia olhá-la e lembrar que ela fora escolhida pela Moon Goddess e descartada por um homem. — Para fora. Talia ficou pálida. — Você não pode cruzar sozinha. Sem conseguir se transformar, você é carne aberta. Maya puxou o linho do pulso. O tecido colou na ferida e rasgou quando ela o arrancou. Sangue escuro escorreu pela palma. A meia-lua partida parecia uma boca negra. — Eu já sou. Talia se aproximou de novo, mais devagar. — Se fugir, ele vai sentir. Maya parou. O quarto pareceu inclinar. — O laço foi rejeitado. — Foi partido. Não apagado. Naquela mesma hora, longe dali, em algum aposento alto do castelo de pedra vermelha, Kaelen Draven levou a mão ao peito e quase quebrou a taça entre os dedos. O vinho escuro escorreu sobre a mesa do Conselho como sangue fresco. Veyr falava havia minutos sobre alianças, fronteiras e a necessidade de uma cerimônia rápida para legitimar Seraphine antes que a Matilha de Ferro interpretasse hesitação como insulto. Seraphine permanecia à direita de Kaelen, impecável em um vestido verde-profundo, o pescoço nu oferecido ao futuro, sem marca de acasalamento ainda, sem vergonha. Kaelen não ouvia. Cada batida do coração dele vinha acompanhada de um passo. Maya se levantando. Maya cambaleando. Maya sangrando. Ele sentiu a planta do pé dela tocar pedra fria, e uma dor fina atravessou suas costelas. Seu lobo enlouqueceu. Busque. Kaelen fechou a mão até as unhas perfurarem a palma. Minha. Não. Ele ergueu o olhar. Ronan estava perto da porta, com o rosto fechado e as cicatrizes do ombro rígidas sob a camisa. Não precisou de mind-link. O Beta já sabia. — Alfa — Ronan disse baixo. — Ela vai embora. Seraphine voltou os olhos para ele. — Quem? O rosnado subiu na garganta de Kaelen antes que pudesse disfarçar. Seraphine ouviu. Veyr também. Todos ouviram. Ronan deu um passo. — Maya não sobreviverá à floresta nesse estado. Kaelen se levantou. A cadeira arrastou na pedra com um grito áspero. Por um instante, todos viram a transformação ameaçar outra vez: os ombros dele dilataram, a mandíbula endureceu, veias negras pulsaram no pescoço. O dourado tomou seus olhos por inteiro. Cedro. Chuva. Jasmim queimado. O cheiro dela inundou a sala sem estar lá. Seraphine fechou a expressão por uma fração de segundo. Só uma. O suficiente. — Se você sair atrás dela agora — ela disse, a voz macia como lâmina envolta em seda —, o Conselho verá um Alfa Supremo correndo atrás da Ômega que rejeitou. A Matilha de Ferro verá fraqueza. Os renegados verão brecha. Ronan virou-se para ela. — E se ela morrer? Seraphine sorriu sem mostrar dentes. — Então a rejeição estará completa. O ar estalou. Kaelen atravessou metade da distância até ela antes que percebesse. Sua mão parou a um palmo da garganta de Seraphine, dedos curvados como garras que ainda não tinham rasgado pele. Veyr sufocou um som. Seraphine não recuou, mas o perfume dela se quebrou por baixo da camada de flores caras. Algo amargo escapou. Wolfsbane. Cinza. Uma podridão ritual coberta demais por beleza. Kaelen sentiu. E guardou. — Escolha suas próximas palavras — ele disse — como se sua vida dependesse delas. O sorriso dela morreu. Ronan aproveitou. — Deixe-me ir. Sem estandarte. Sem patrulha. Eu a trago de volta antes do amanhecer. Kaelen quase disse sim. A palavra estava na língua, cravada ali. Então o laço morto torceu dentro dele. Maya descendo a escada dos fundos. Maya prendendo o gemido para não alertar os guardas. Maya cheirando a sangue e decisão. Se Ronan fosse, todos saberiam. Se Kaelen fosse, todos veriam. Se ele ordenasse uma busca pela Mate rejeitada, Seraphine venceria antes da coroação. O Conselho arrancaria dele pedaços de poder em nome da estabilidade. As matilhas rivais farejariam a rachadura. Os renegados empurrariam a fronteira. Ele tinha escolhido a Pack. Tinha escolhido isso. Kaelen engoliu vidro. — Ninguém a segue. O silêncio que caiu foi pior que grito. Ronan piscou, como se o Alfa tivesse cuspido na cara dele. — Kaelen. O nome, sem título, sem submissão. Os olhos dourados de Kaelen queimaram. — Eu dei uma ordem ao meu Beta. Ronan respirou fundo. O laço mental da Pack falhou quando tentou se abrir entre eles; só veio um ruído distante, como ossos rangendo sob neve. — E eu ouvi meu Alfa condenar uma loba ferida a morrer para preservar uma sala cheia de covardes. Veyr levantou-se. — Isso é traição. — Não — Ronan disse, sem olhar para ele. — Traição foi ontem à noite. Kaelen avançou. Ronan não baixou a cabeça. Por um momento, o Salão do Conselho cheirou a guerra interna. Alfa e Beta. Dente contra dente. Sangue de irmãos antes do amanhecer. Então Maya atravessou a primeira porta externa do castelo. Kaelen sentiu o frio da madrugada bater no rosto dela. E quase caiu de joelhos. Maya correu dobrada, uma mão pressionada ao flanco embora ninguém a tivesse ferido ali ainda. A dor do laço rejeitado migrava pelo corpo, escolhendo lugares para morder: costelas, nuca, ventre, a parte interna dos pulsos onde uma marca de acasalamento jamais existiria. Os guardas do corredor estavam no chão. Não mortos. Dormindo. Talia devia ter colocado raiz de valeriana no chá deles. Ou Ronan. Maya não sabia. Não podia voltar para agradecer. As pedras do pátio estavam molhadas de geada. Seus pés descalços queimavam de frio, mas ela não diminuía. Passou pelas cozinhas, pelo depósito de lenha, pelo portão lateral usado pelos servos para levar cinzas. O ferrolho pesado rangeu quando ela o ergueu. O som pareceu um uivo. Maya parou, esperando gritos. Nada. Só o vento. E, muito ao longe, vindo da torre norte, um rugido tão baixo que podia ser trovão. Kaelen. O nome bateu contra as costelas dela. A marca partida no pulso acendeu. Maya quase respondeu pelo laço mental que não existia mais. Quase disse: estou aqui. Quase odiou a si mesma por isso. Em vez disso, cruzou o portão. A floresta a recebeu com dentes de pinheiro. O território da Lua Sangrenta tinha cheiro próprio: terra escura, sangue de cervo, fumaça dos lares, pele de lobo familiar. Maya conhecia cada trilha, cada pedra coberta de musgo, cada árvore marcada pelas patrulhas. Mas naquela madrugada tudo parecia virado do avesso. Os mind-links, antes um murmúrio ao fundo da mente, estavam mudos. Sem a rede invisível da Pack, o mundo ficou enorme e brutal. Ela tentou chamar sua loba de novo quando chegou à primeira linha de bétulas. Transforme. Nada. Por favor. Apenas dor. Maya mordeu o próprio braço para não gritar. Sangue encheu sua boca. O gosto despertou uma sombra nas entranhas, mas não a loba. Não ainda. Galhos arranharam seu rosto. A túnica rasgou na coxa. Em algum momento, ela caiu e rolou por uma encosta de folhas congeladas, batendo o ombro numa raiz. O ar saiu dos pulmões. Acima dela, entre as copas negras, a lua minguante observava sem ternura. Moon Goddess, pensou, rindo com sangue nos dentes, se ainda me vê, desvie o olhar. Já assistiu o bastante. Ela se levantou. A fronteira ficava depois do riacho vermelho, chamado assim pelo minério que manchava as pedras. Quando criança, Maya fora proibida de chegar perto. Lobos pequenos ouviam histórias sobre renegados que roubavam peles, sobre almas sem Alfa que mastigavam marcas de acasalamento para sentir alguma coisa. Naquela noite, ela não tinha marca nenhuma para oferecer. Só a rejeição. E rejeição tinha cheiro. Ela percebeu isso tarde demais. Não era apenas sangue. Era algo mais profundo, mais doce e apodrecido: o perfume de um laço de Mate quebrado antes de se fechar. Jasmim queimado sob chuva fria. Uma fenda aberta na carne do destino. A floresta ficou quieta. Maya parou no meio do riacho. A água gelada lambeu seus tornozelos. As pedras vermelhas sob seus pés pareciam órgãos expostos. Um galho estalou à esquerda. Depois outro à direita. Olhos surgiram entre as árvores. Cinco pares. Não. Sete. Dourados sujos. Amarelos. Um deles quase branco de tão faminto. Maya recuou um passo. A correnteza puxou a bainha de sua túnica. Um homem saiu primeiro, embora homem não fosse palavra exata. Estava nu da cintura para cima, a pele coberta de cicatrizes e lama. Os ossos do rosto haviam começado a mudar e parado no meio: mandíbula larga demais, caninos longos, nariz achatado pelo instinto. Um renegado antigo. Perdido entre formas. Ele inspirou fundo. Seus olhos reviraram de prazer. — Mate rejeitada — ele sussurrou. Os outros rosnaram. Maya sentiu o estômago virar. — Eu não tenho nada para vocês. O renegado sorriu. — Tem sim. Tem cheiro de Alfa no sangue. Cedro queimou ao redor dela como lembrança cruel. — Ele me rejeitou. — Melhor ainda. Outro saiu das sombras, já em forma de lobo, cinza, costelas marcando a pelagem. A saliva pingava entre as presas. Maya tentou puxar a transformação com força, rasgando por dentro, chamando qualquer coisa que ainda pudesse restar. O pulso partiu em fogo. Ela gritou. Por um segundo, viu prata atrás dos próprios olhos. Uma lua submersa em sangue. Aelira. O nome não veio como pensamento. Veio como eco. O renegado à frente inclinou a cabeça. — O que você é? Maya não respondeu. Porque não sabia. Porque a floresta, de repente, cheirava a sálvia distante, ferro antigo e neve. Porque alguma coisa sob sua pele acordou, não como loba, mas como memória. Então a dor a fez perder o foco. O lobo cinza atacou primeiro. Maya se jogou para o lado, escorregou nas pedras e caiu de joelhos dentro do riacho. A mordida passou raspando seu ombro, arrancando tecido e pele. Ela enfiou os dedos na lama vermelha e arremessou nos olhos do animal. Ele ganíu, furioso. Outro veio por trás. Garras cortaram suas costas em três linhas quentes. Maya cambaleou, mas não caiu. Pegou uma pedra do riacho e bateu no focinho do renegado que tentava agarrá-la em forma humana. Osso quebrou sob sua mão. O som foi horrível. Bom. Ele riu apesar do sangue. — A rejeitada tem dentes. — Chegue mais perto e eu arranco os seus. A ameaça saiu rouca, selvagem. Não parecia a voz de uma Ômega. Por um instante, até os renegados hesitaram. Longe dali, no castelo, Kaelen caiu de joelhos diante do Conselho com a mão cravada no próprio peito. Maya. Dessa vez, o nome atravessou o vazio do laço morto como uma lâmina em brasa. Ela ouviu. No meio da floresta, cercada por olhos famintos, Maya ouviu a voz dele dentro da carne. Não pelo mind-link da Pack. Não pelo vínculo aceito. Pela ferida. Maya. Havia pânico. Raiva. Posse. Uma súplica enterrada tão fundo que ela quase não reconheceu. Sua resposta foi um rosnado. Saia da minha cabeça. A conexão estourou em dor. O céu tremeu. Os renegados levantaram o focinho ao mesmo tempo. A lua acima das copas começou a mudar. Primeiro, uma mancha escura na borda. Depois uma vermelhidão lenta, espessa, como sangue espalhado em água. O luar prateado se tornou rubro sobre a pele de Maya, sobre o riacho, sobre os dentes dos lobos sem Pack. O renegado antigo arregalou os olhos. — Lua de sangue. Maya sentiu o pulso aberto responder. A meia-lua partida queimou negro. Algo dentro dela empurrou as costelas para fora. Pelo? Não. Luz. Ela gritou quando a primeira garra atravessou seu flanco. O lobo cinza a acertou de lado, fundo, rasgando carne até o calor de seu sangue jorrar na água vermelha. Maya caiu de costas no riacho, a correnteza engolindo seu cabelo, o céu vermelho pulsando acima. O renegado subiu sobre ela, presas abertas para sua garganta. E, sob a água tingida, a marca partida em seu pulso começou a se fechar ao contrário.
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