O ramal direto de Ren Kuroda nunca tocava. Era uma linha sagrada, um canal exclusivo para crises que ameaçassem os fundamentos da empresa. Quando o som agudo cortou o silêncio da sua presidência, ele atendeu com a voz já afiada como uma lâmina.
— Kuroda.
— Senhor Kuroda — a voz do outro lado era neutra, quase cirúrgica. — Falo em nome da senhorita Tanaka. Ela o agendou para uma reunião amanhã, às dez horas, na sua sede. A pauta é a iminente quebra de contrato da Apex Components.
A audácia era uma bofetada. Não era um convite, era uma convocação. E na casa dele. Ele sentiu o sangue subir, mas antes que pudesse formular uma resposta esmagadora, o homem continuou: — Esteja preparado. Bom dia. — A linha ficou muda. Ren segurou o telefone por um instante, o silêncio ecoando a insolência da ordem. Ela não estava batendo à sua porta. Estava arrombando-a.
Na manhã seguinte, a sala de reuniões do último andar era um altar de poder e vidro negro, refletindo um céu cinzento sobre Tóquio. Ren estava de pé junto à janela, um general inspecionando seu território antes da batalha. Sobre um aparador de laca, um arranjo extravagante de lírios brancos e orquídeas raras parecia sugar o oxigênio do ambiente. Um gesto. Um ramo de oliveira. Uma demonstração de que ele ainda podia ser magnânimo. Ele mesmo não sabia ao certo, e essa incerteza o corroía.
Dez horas. A porta não se abriu. Dez e um. O silêncio esticou, tornando-se uma tática. Dez e dois. Uma veia latejou em sua têmpora. Era um jogo de poder barato, infantil. E estava funcionando.
Às dez e três, a porta se abriu. Uma falange silenciosa de três pessoas em ternos escuros entrou primeiro, posicionando-se contra a parede como sentinelas. Então, ela surgiu. O tailleur magenta dera lugar a um vestido azul-marinho de corte implacável, que não sugeria nada além de autoridade. O cabelo, preso num coque baixo e severo, expunha a linha desafiadora da sua mandíbula. Não havia vestígio da mulher que se encolhia sob seu olhar, que pedia desculpas com os olhos. Esta era uma estranha habitando o corpo de sua esposa.
Hana não o olhou. Seu queixo estava erguido enquanto seu olhar varria a sala, registrando seus assessores, a vista, a mesa. Só então, por último, seus olhos pousaram nele. Frios. Analíticos. Como se avaliasse um ativo.
— Senhor Kuroda — a voz dela era cristalina, sem o menor tremor. — Agradeço por nos receber.
Ela caminhou até a cabeceira oposta da mesa, o som dos seus saltos no mármore como batidas de um relógio, e pousou uma pasta de couro sobre o vidro com um baque suave e definitivo. Sua equipe sentou-se em uníssono. Ren continuou de pé, subitamente um estranho em seu próprio santuário.
— Hana… — ele começou, a voz mais baixa do que pretendia, um apelo mal disfarçado.
— A pauta é densa, senhor Kuroda. O tempo é um ativo que não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar — ela o cortou, abrindo a pasta sem erguer os olhos. Sua frieza não era uma performance; era uma armadura. — A Apex Components pretende quebrar a exclusividade. Isso afeta a ambos. Propomos uma frente unificada.
Ren forçou-se a sentar. — Uma frente unificada. Que conveniente, agora que interessa ao Grupo Tanaka.
Um de seus assessores se mexeu desconfortável, mas Hana ergueu um dedo, um gesto mínimo que o congelou.
— Conveniência é irrelevante. Sustentabilidade de mercado, não — ela respondeu, os olhos ainda nos papéis. — Ou entramos numa guerra de lances que nos custará milhões, ou apresentamos uma proposta de aquisição conjunta. O Grupo Tanaka já elaborou os termos.
Ela deslizou uma única folha pela longa mesa de vidro. O papel viajou os metros que os separavam como um navio em um mar escuro, parando perfeitamente alinhado diante dele. Uma intimação.
Ele o ignorou. — Precisamos conversar. E não é sobre isso.
Ela finalmente levantou o rosto. O contato visual foi como o clique de um gatilho.
— Não, senhor Kuroda. Nós *não* precisamos. — Cada palavra, uma pedra de gelo. — Nossos advogados conversarão. Aqui, somos dois CEOs tentando evitar que nossas empresas sangrem. Nada mais.
A porta para qualquer assunto pessoal foi fechada com a força de uma guilhotina. Ele, um mestre da intimidação silenciosa, estava sendo desarmado por uma versão aprimorada de suas próprias táticas.
— Minha empresa pode absorver o prejuízo de uma guerra de lances — ele contra-atacou, a bravata soando oca até para si mesmo.
— Sua empresa, talvez — ela concedeu, um aceno quase imperceptível. — Seus acionistas, no entanto, não apreciarão saber que o senhor rejeitou uma solução lucrativa por... motivos pessoais. Eu, por outro lado, respondo apenas a mim mesma.
Xeque-mate.
Ele pegou uma caneta, girando-a entre os dedos, um tique nervoso que não tinha há anos. O cheiro dos lírios começou a se infiltrar em sua consciência, enjoativo, quase funerário.
— E qual é a garantia de que o Tanaka não usará essa parceria para roubar informações?
Pela primeira vez, algo cintilou nos olhos dela. A sombra de uma ironia amarga.
— A mesma garantia que o senhor teve por três anos de que sua esposa não usaria seu sobrenome para nada. A minha palavra. — Ela fez uma pausa, deixando a frase pairar no ar como veneno. — Embora eu compreenda por que, para o senhor, ela não tenha valor algum.
O ar escapou dos pulmões de Ren. Não foi um ataque; foi uma autópsia. A constatação de um fato indiscutível.
O que se seguiu não foi uma reunião, foi uma aula. Por quarenta e sete minutos, Hana dissecou a Apex, mapeou a estratégia de aquisição e comandou sua equipe com uma precisão implacável. Ela não se dirigiu mais a ele. Ren se tornou um fantasma na própria sala, um espectador da sua rendição, assistindo à mulher que ele considerava uma decoração se revelar uma arquiteta de impérios.
Pontualmente às onze, Hana fechou a pasta. O som foi final.
— Minha equipe enviará a proposta até o fim do dia. Aguardo sua assinatura em vinte e quatro horas, senhor Kuroda. Após esse prazo, agiremos sozinhos.
Ela e sua equipe se levantaram em um único movimento fluido.
— Hana, espere — ele disse, a voz rouca.
Ela parou junto à porta, mas não se virou. Apenas sua cabeça se inclinou, um reconhecimento mínimo de que ele falara.
— O divórcio…
— É um assunto para os advogados — ela repetiu, a voz sem inflexão ou emoção. — Esta reunião está encerrada.
A porta se fechou com um clique suave, lacrando o silêncio. O olhar de Ren vagou pela sala vazia e pousou nos lírios brancos. Imaculados, arrogantes. Intocados. Ele caminhou até o aparador, o perfume das flores agora sufocante, e tocou uma pétala. Fria. Um ramo de oliveira para uma mulher que não buscava a paz, e sim a rendição incondicional. Ele olhou para a cadeira vazia na cabeceira oposta, para as flores inúteis, e uma verdade terrível o atingiu com a força de um colapso estrutural. Ele não havia apenas ignorado Hana. Ele a havia forjado.