Ricardo Bittencourt escolheu a mesa no fundo, de costas para a parede, como se até uma conversa em café pudesse virar emboscada.
O espresso esfriava intocado diante dele quando Patrícia Vasconcelos chegou. Casaco claro, celular na mão, batom perfeito. Não pediu desculpa pelo atraso. Apenas puxou a cadeira e olhou para o envelope pardo sobre a mesa.
— Você escolheu um lugar barato para uma conversa cara — disse ela.
Ricardo ergueu os olhos.
— Você chegou atrasada para parecer indispensável.
— Eu sou indispensável para quem precisa de barulho.
Ele empurrou o envelope.
Patrícia não abriu de imediato. Passou a unha vermelha pela aba, devagar, como quem mede o valor antes de tocar.
— Se for briga de família, não me interessa. Leitor gosta de escândalo, mas processo judicial tira o sono de editor.
— Não é briga. É risco público.
— Todo mundo diz isso quando quer usar a imprensa como faca.
Ricardo apoiou dois dedos no envelope.
— Laura Bittencourt entrou ontem na fábrica. Advogada. Histórico em recuperação judicial, liquidação, disputa societária. Vem de fora, não entende produção, não conhece os funcionários e aparece com uma cláusula absurda de casamento no testamento da minha mãe.
Patrícia abriu o envelope. Folheou cópias de processos, recortes antigos, uma foto de Laura saindo de um fórum com uma pasta contra o peito. O canto da boca dela se moveu.
— Advogada de falências — leu, baixa. — Funciona.
— Funcionários precisam saber quem está tentando assumir o lugar da Cecília.
— Funcionários ou bancos?
Ricardo tomou o café frio de uma vez.
— Medo circula rápido nos dois.
Patrícia alinhou as folhas com uma batida seca na mesa.
— E o que eu ganho além do prazer duvidoso de irritar uma herdeira?
— A primeira entrevista quando houver venda, disputa pública ou reestruturação. Com números. Sem filtro.
Ela guardou o envelope na bolsa.
— Você fala ‘quando’ como se já tivesse comprado o futuro.
— Eu conheço minha sobrinha.
Patrícia se levantou, lenta.
— E eu conheço leitores. Eles não precisam de certeza. Só precisam de uma pergunta bem envenenada.
Na fábrica, a primeira vibração veio às onze e quarenta e sete.
Um celular tremeu sobre a mesa da administração. Depois outro, no galpão. Em seguida, três ao mesmo tempo, espalhados entre caixas, aventais e bancadas manchadas de chocolate.
Laura Bittencourt estava com uma calculadora antiga na mão, conferindo pela terceira vez um pagamento duplicado. O botão do oito falhava. Ela apertou com força demais, e o número apareceu torto no visor.
Do outro lado da mesa, Gabriel Monteiro riscava uma planilha com lápis. O relatório que ela jogara no carrinho no dia anterior estava agora preso por um clipe, com duas páginas marcadas por chocolate seco. Ele o recolhera sem dizer nada. A delicadeza silenciosa a irritava quase tanto quanto as acusações dele.
O celular de Laura vibrou.
Número desconhecido. Um link.
Ela abriu.
A manchete ocupou a tela antes que ela pudesse respirar: HERDEIRA DA FÁBRICA BITTENCOURT É ADVOGADA DE FALÊNCIAS: SALVAÇÃO OU SENTENÇA?
A calculadora caiu. A tampa das pilhas se soltou, e uma delas rolou até o sapato de Gabriel.
Ele se abaixou, pegou a pilha e a colocou sobre a mesa.
— Não leia os comentários.
— Eu não ia.
Laura leu.
Gabriel permaneceu calado.
A matéria misturava processos públicos, frases fora de contexto e uma foto antiga dela, pálida, saindo de um fórum depois de uma audiência de oito horas. A expressão advogada de falências aparecia três vezes. Casamento imposto por testamento, duas. Funcionários temem demissões vinha entre aspas, sem nome, sem rosto, sem coragem.
Do galpão, o ritmo das máquinas começou a falhar. Um carrinho parou no meio do caminho. Alguém aumentou o volume de um vídeo no celular, e uma voz animada repetiu a manchete como se anunciasse promoção.
Laura fechou o link.
— Quem falou com a imprensa?
Gabriel girou o lápis entre os dedos.
— Alguém que queria que a fábrica ouvisse antes de você.
Ela se levantou.
No galpão, o ar estava quente e doce demais. Açúcar fino grudava no piso. As pessoas fingiam trabalhar com celulares virados para baixo, mas os olhos não mentiam. Quando Laura passou, uma embalagem caiu no chão. Ninguém se abaixou no primeiro segundo.
— A produção continua — disse ela.
A frase saiu firme. Por dentro, porém, algo nela se contraiu ao ver uma tela acesa sobre a bancada, sua foto ampliada, seu nome partido em medo.
Um funcionário tirou a touca, amassando o tecido entre os dedos.
— Doutora, é verdade?
Laura parou.
Gabriel ficou alguns passos atrás, perto das caixas, sem tomar o centro. Ainda assim, ela sentiu a presença dele como uma linha tensa às suas costas.
— Qual parte? — perguntou ela.
— Que a senhora veio fechar isso aqui. Fazer conta, cortar gente, vender máquina.
O cheiro de chocolate queimado subiu de uma cuba esquecida. Laura ouviu a própria caneta bater contra a pulseira do relógio. Nem lembrava de tê-la trazido.
— Eu vim impedir que fechem por mim.
— Mas a matéria diz que a senhora trabalhou em falência.
— Trabalhei em empresas que ninguém mais queria defender.
— E salvou alguma?
Laura abriu a boca.
— Salvou.
A voz de Gabriel cortou o ruído das máquinas.
Ele se aproximou, pegou o celular que o funcionário segurava e rolou a tela até o trecho citado.
— Esse processo aqui foi recuperação judicial. Cento e vinte empregos mantidos. Esse outro virou acordo com credores, e a empresa continuou aberta. Neste, ela representou funcionários contra antigos donos que tentavam sumir com verbas atrasadas.
Devolveu o aparelho.
— Se vão desconfiar, desconfiem lendo direito.
O funcionário olhou para a tela de novo, mais devagar.
Laura virou o rosto para Gabriel. Ele já observava a linha de produção, como se apenas tivesse corrigido uma conta errada. Como se defendê-la não tivesse custo nenhum.
— E o senhor? — o funcionário perguntou. — Também veio salvar?
Gabriel ajeitou a manga dobrada, manchada de grafite.
— Eu vim colocar dinheiro onde ainda houver chão. Mas dinheiro não conserta boato, estoque que some nem gente fazendo pergunta pela metade.
Um murmúrio correu entre as bancadas.
Laura deu um passo à frente.
— O pagamento de sexta ainda está sendo tratado. Vou falar com o banco hoje. No fim do turno, eu explico o que puder explicar sem prejudicar a fábrica. Quem tiver pergunta, faz para mim. Não para link. Não para áudio. Não para frase sem nome.
O funcionário olhou para a cuba.
— A cobertura vai passar do ponto.
— Então salva a cobertura — disse Laura. — Eu tento salvar o resto.
Ele recolocou a touca e voltou ao trabalho.
As máquinas retomaram o compasso aos poucos. O som não apagou a matéria, mas empurrou o medo para dentro da rotina, onde pelo menos havia mãos ocupadas.
Laura voltou para a administração sem esperar Gabriel.
No computador, encontrou a assinatura no rodapé da matéria: Patrícia Vasconcelos. Foto profissional, sorriso pronto, coluna de negócios, histórico de textos sobre crises empresariais.
Gabriel entrou logo depois.
— Patrícia Vasconcelos não publica sem fonte.
— Eu sei.
— Ricardo Bittencourt tinha material.
Laura pegou o relatório dele e colocou ao lado do computador. Soltou o clipe torto e prendeu de novo, alinhando as folhas.
— Você tem muita facilidade para apontar para o meu tio.
— E você tem muita prática em tirar o dedo da frente.
Ela ergueu o olhar.
— Não usa essa matéria para me empurrar para a sua versão.
— Minha versão não publicou sua foto. Minha versão passou a noite num carrinho.
A resposta acertou mais do que ela queria. Laura apertou a caneta até a tampa estalar.
— Por que me defendeu lá fora?
— Porque era verdade.
— Só isso?
— Não gasto frase com funcionário assustado para ser gentil.
— Claro. Gentileza deve constar como prejuízo no seu balanço.
O canto da boca dele quase cedeu. Quase.
Laura olhou para as manchas de chocolate no relatório. Ele tinha recolhido página por página depois da acusação dela. Sem cobrar desculpas. Sem dizer eu avisei.
— Vou responder a matéria — disse ela. — Sem nota vazia. Vou reunir os funcionários no fim do turno, abrir o que posso abrir e deixar claro que ninguém aqui será usado como isca.
— Isso expõe dívida, caixa, fornecedor.
— Não vou dar números estratégicos. Vou dar direção.
— E Patrícia?
— Resposta formal. Curta. Sem espetáculo.
— Ela vai chamar de fuga.
— Que chame.
— Enquanto isso, Ricardo manda o link para banco, credor e fornecedor.
Laura puxou uma folha em branco e empurrou para ele.
— Então me dê três fatos verificáveis sobre aqueles processos. Sem adjetivo. Sem veneno. Sem perfume de assessoria.
Gabriel ficou parado.
— Você leu meu histórico — ela disse. — Use isso para algo melhor do que me provocar.
Ele pegou a folha. Os dedos dos dois tocaram a borda ao mesmo tempo. Um contato rápido, quase nada. Ainda assim, Laura soltou primeiro.
Gabriel escreveu três linhas com letra pequena e precisa.
— Públicos — disse. — Ela omitiu porque queria outro desenho.
Laura leu. Empregos mantidos. Verbas garantidas. Acordo homologado.
Dobrou a folha e guardou na pasta.
— Obrigada.
A palavra saiu baixa.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Repete. Acho que a máquina cobriu.
— Não abusa.
Ele riu pelo nariz, breve demais para virar paz.
O telefone da administração tocou. Laura atendeu no viva-voz.
Uma voz masculina, apressada, informou que o pedido da semana seguinte ficaria suspenso até a situação na imprensa clarear. A ligação caiu antes que ela respondesse.
O silêncio pesou.
Laura pegou o casaco e a pasta com o relatório.
— Vou ao banco agora.
— Sozinha?
— Ainda sei atravessar uma porta.
Gabriel vestiu o paletó.
— Eu também.
— Não convidei.
— Não pedi.
Ela parou na saída. O corredor cheirava a cacau, papel úmido e frio entrando pelas frestas. Ao longe, um celular voltou a vibrar.
Gabriel ficou ao lado dela, sem abrir caminho e sem bloquear.
— Nossos inimigos não fazem distinção entre nós. É melhor aprendermos a lutar juntos.