O ouro da Chiesa del Gesù não celebrava a Deus; era uma afronta. Derramava-se das paredes em cascatas barrocas, um excesso calculado para humilhar o próprio conceito de fé. Giulia, a restauradora, enxergava apenas as fissuras capilares sob a douração, a estrutura doente por trás da fachada opulenta. Era o testamento estético de seu pai: o perdão comprado por quilo, a salvação como mais uma aquisição.
Sentada no primeiro banco, ela era um ponto de quietude num vórtice de luto performático. À sua direita, a tia Rosalia era um monumento à viuvez siciliana, o véu de renda preta uma cortina que não escondia os olhos atentos, fiscalizando cada entrada. À sua esquerda, Mimmo se desfazia. Encolhido, o corpo dobrado sobre um sofrimento que parecia sugar o ar ao redor, ele torcia um lenço até os nós dos dedos ficarem brancos. Nenhum dos dois olhava para o caixão de mogno que brilhava sob a luz dos círios, o centro imóvel daquela ópera de dor.
O ar denso, uma mistura sufocante de lírios e incenso, grudava na garganta. Um cheiro de santidade forçada. Foi então que uma porta lateral se abriu, e com ela veio o som do poder. Não um estrondo, mas um murmúrio contido, o farfalhar de sedas e o clique discreto de sapatos caros no mármore. O público chegava para a última reverência a Cosimo Alagna.
Giulia não precisou se virar. Sentiu a mudança na atmosfera antes de vê-lo. Salvo Ingrassia não estava ao lado da família. Ele estava postado junto à entrada principal, a silhueta escura recortada contra a luz crua da praça. Era ele quem recebia os chefes das outras famílias. Sua mão pousava brevemente no ombro de um, sua cabeça se inclinava para ouvir a esposa de outro, um gesto de comando disfarçado de consolo. Eram as mesmas mãos que ela vira emoldurando a poltrona de seu pai, mas agora elas não guardavam mais o poder. Elas o distribuíam.
Homens com rostos de pedra, cujos nomes eram sussurrados com medo nas ruas de Palermo, entravam e, ao ver Salvo, a tensão em seus ombros cedia. Inclinavam a cabeça, um reconhecimento que não era para o morto no altar, mas para o vivo que guardava o portão. Giulia sentiu a costura de sua bolsa cravar na palma da mão. Na noite anterior, ela pensara que ele havia herdado o trono. Estava errada. Ele era o trono. A estrutura sobre a qual todo o império de seu pai agora repousava.
A missa começou, a voz do Padre Bartolo enchendo a nave com um latim que soava mais como um encantamento. *Réquiem aeternam dona eis, Domine*. Descanso eterno. Um sorriso amargo e fugaz crispou os lábios de Giulia. Descanso era um luxo que homens como Cosimo Alagna não conheciam, nem nesta vida, nem na próxima.
Seu olhar varreu a congregação: esposas vestidas de preto, os olhos como obsidiana, trocando olhares que selavam pactos silenciosos; filhos que agora ocupavam os lugares dos pais, a mesma desconfiança gravada em rostos mais jovens. Não era um funeral, era uma troca da guarda. E Salvo, impassível, era o notário.
Quando a nota final e grave do órgão se desfez no ar, o feitiço se quebrou. A onda de murmúrios e movimentos quebrou contra o primeiro banco. Rosalia aprumou-se, pronta para o seu papel. Mimmo pareceu encolher ainda mais. Giulia apenas esperou, o corpo gelado por dentro.
O primeiro a se aproximar foi o Padre Bartolo Cusumano. Baixo, o rosto redondo e os olhos pequenos e brilhantes que viam tudo. Ele ignorou Rosalia e Mimmo, suas mãos enrugadas pousando diretamente sobre as de Giulia, um gesto de intimidade inesperada.
— Minha filha — a voz dele foi um sussurro conspiratório, apenas para ela. — Seu pai construiu muros muito altos. E deixou fardos muito pesados. Rezemos para que você tenha a força necessária para carregar os seus.
A frase não era uma condolência. Era uma sentença. Giulia apenas assentiu, a garganta fechada.
Depois dele vieram os outros, um borrão de rostos e mãos. Beijos estalados no ar, palavras vazias — “condolências”, “grande homem”, “perda irreparável” — que se dissolviam no cheiro enjoativo de perfume e naftalina. Ela era uma figura de cera, a filha pródiga retornada para completar o quadro. Para cada um, um aceno mudo, o rosto uma máscara.
Ela já havia perdido a conta quando o fluxo diminuiu e um homem se destacou da penumbra.
Ele esperou até o fim. Impecavelmente vestido num terno de corte perfeito, a seda escura da gravata absorvendo a pouca luz. O cabelo grisalho nas têmporas adicionava um toque de distinção predatória. Ao parar diante dela, o murmúrio ao redor pareceu recuar.
— Signorina Alagna. — A voz era suave, polida. — Os meus mais profundos pêsames. O seu pai era um pilar desta cidade.
Giulia ergueu os olhos. Nunzio Terranova. O nome detonou uma memória antiga, arrancada de uma conversa tensa de seu pai, a palavra pronunciada como se fosse veneno. Um rival.
O sorriso dele era uma obra-prima de falsidade, sem alcançar os olhos que a estudavam, duas lascas de vidro escuro. Ele estendeu a mão. Por um instante que se esticou como a eternidade, ela hesitou. Recusar, ali, seria uma declaração de guerra.
Com uma lentidão que lhe custou tudo, ela colocou sua mão na dele.
A pele dele era fria e seca como papiro. A pressão foi leve, quase inexistente, mas foi o que ele fez a seguir que a congelou. O polegar dele roçou, deliberadamente, o dorso da mão dela. Um toque lento, íntimo e proprietário.
— Uma tragédia que o coração o tenha traído — Terranova continuou, o sorriso fixo. — Justo agora. Há tanto em jogo.
Ele segurou a mão dela um segundo a mais do que a decência exigia, um segundo em que a posse se tornou ameaça. Giulia puxou a mão de volta, um movimento brusco que ela não conseguiu disfarçar, como se tivesse tocado num réptil.
Ele inclinou a cabeça, uma vênia respeitosa que contrastava com a insolência em seu olhar. — Palermo sentirá a sua falta.
Então, ele se virou e se afastou com a calma de quem é dono do chão que pisa. Giulia ficou parada, olhando para a própria mão, que ainda ardia com o frio do toque dele. O arrepio que a percorreu não tinha nada a ver com o luto. Era o pressentimento gelado não de uma vida que terminara, mas de uma caçada que acabava de começar.